Ttulo: Mais Forte  o Amor.
Autora: Barbara Cartland.
Dados da Edio: Nova Cultural, So Paulo, 1987.
Ttulo Original: The devil defeated.
Gnero: romance.
Digitalizao: Dores cunha.
Correco: Edith Suli.
Estado da Obra: Corrigida.
Numerao de Pgina: Rodap.

Esta obra foi digitalizada sem fins comerciais e destinada unicamente 
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BARBARA CARTLAND
A mais famosa e perfeita autora de romances histricos, com 350 milhes 
de livros vendidos em todo o mundo

Mais forte  o amor
O grito atravessou a porta entreaberta fazendo Dorina arrepiar-se de 
medo. As terrveis palavras ecoavam nas paredes do quarto mal iluminado:
"Lcifer, vinde a mim! Senhor das trevas, imploro, sou teu servo! Vinde, 
honrai-me com vossa poderosa presena! Se me der poder, eu lhe ofertarei 
o sacrifcio de uma virgem pura e inocente!" Dorina estava a ponto de 
desmaiar... Tinha reconhecido a
voz do homem que clamava pelo Demnio. E entendeu, apavorada, que seria 
ela a virgem ofertada a Satans!

Nova Cultural

BARBARA CARTLAND
Mais forte  o amor
Leitura - a maneira mais econmica de cultura, lazer e diverso.
Ttulo original: The devil defeated
Copyright: (c) Barbara Cartland 1985
Traduo: Vera Ldice Reys
Copyright para a lngua portuguesa: 1987 Editora Nova Cultural Ltda.
Esta obra foi composta na Artestilo Ltda. e impressa na Editora Parma 
Ltda.
Nova Cultural - Caixa Postal 2372

NOTA DA AUTORA
Na segunda metade do sculo XIX houve na Frana uma ascenso da Magia
Negra.
Ela era praticada principalmente por grupos intelectuais que formavam
cultos satnicos, celebrando Missa Negra, evocando espritos, estudando a
continuao da vida e outras cincias ocultas.
Na Gr-Bretanha isso ficou mais confinado s zonas rurais, onde
feiticeiros e feitiaria vicejaram desde o comeo dos tempos. Na regio
leste da Inglaterra a feitiaria sempre inspirou temor, e o demnio tinha
fama de ser muito ativo no Essex, onde havia abundncia de feiticeiros e
bruxas.
Nada, porm, superou as fantsticas orgias de Hell Fire Cave (Taverna do
Fogo do Inferno), onde, no sculo XVIII, sir Francis Dshwood celebrou
Missas Negras com mais grandiosidade do que algum j fizera at ento ou
veio a fazer posteriormente. As cavernas ainda esto abertas  visitao
pblica no High Wycombe em Buckinghamshire.

CAPTULO I
1818

- Adivinhe quem acabei de ver!
Dizendo isso, Rosabelle irrompeu na sala de jantar.
Sua irm, Dorina, sentada  cabeceira da mesa e servindo um ensopado de 
cheiro apetitoso, ergueu o olhar severo.
- Voc est atrasada, Rosabelle.
- Eu sei e peo desculpas, mas  que vi o conde!
- Onde voc o viu? - perguntou Peter, com a boca cheia.
- No parque - retrucou Rosabelle.
Dorina colocou o prato de ensopado que acabara de servir diante da irm e 
falou, com rispidez:
- J lhe disse mil vezes, Rosabelle, que no devia ir ao parque agora que 
o novo conde chegou, a menos que ele a convide!
- Sempre tivemos permisso de ir ao parque retrucou Rosabelle. - Por que 
ele nos impediria,
agora?
- Porque ele  o dono do parque, sua tola! respondeu Peter.
Peter tinha onze anos, idade em que todos os meninos acham que as meninas 
so bobas.
- Ele poderia prend-la, se quisesse, por invaso de domiclio - 
acrescentou ele, com ar de sabido.
Rosabelle fez beicinho e ficou ainda mais bonita.
- Vocs so todos exagerados e desmancha-prazeres! - disse ela. - Foi
muito interessante ver o conde. Ele estava cavalgando com trs outros
cavalheiros muito bonitos.
- Ele viu voc? -perguntou Dorina.
- Eu estava com Rover e me agachei atrs dos arbustos para que ele no me 
visse.
- Voc vai me prometer que no voltar mais ao parque - disse Dorina, com 
voz firme -, e isso inclui o bosque tambm!
Rosabelle e Peter protestaram com veemncia.
- Mas ns sempre passeamos no bosque, Dorina! Se no pudermos mais ir l 
tambm, s vai sobrar a estrada empoeirada para caminharmos e isso no 
tem graa nenhuma!
- Eu sei, eu sei - concordou Dorina -, mas, por favor, faam o que digo! 
Tenho certeza de que o conde vai achar uma invaso se os encontrar l. Eu 
no quero isso!
- No vejo por qu - disse Rosabelle, com rebeldia.
Tinha apenas quinze anos, idade em que se ressentia quando lhe diziam 
para no fazer alguma coisa. Por outro lado, tal como Peter, ela adorava 
a irm mais velha e, de modo geral, eram ambos extremamente obedientes. 
Aps a morte da me, Dorina assumira
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a administrao da casa e a educao dos irmos, que no lhe davam 
muito trabalho.
A porta da sala abriu-se e o pai deles entrou. O pastor Prosper Stanfield
era um homem extremamente bonito, com cabelos que comeavam a ficar
grisalhos. Vinha do jardim, onde gostava de ficar trabalhando sem ser
interrompido. Sempre se interessara por jardinagem, principalmente pelo 
cultivo de espcies raras de cactos.
Depois da morte da esposa ficara to infeliz que Dorina chegou a temer 
que ele morresse tambm. Ento, dedicou-se totalmente a seu jardim para 
tentar esquecer sua dor e sua solido.
Ele se sentou  mesa, e Dorina reparou que dessa vez lembrara-se de lavar 
as mos.
- Teve uma boa manh, papai? - perguntou ela, com voz carinhosa e cheia 
de amor. - Tenho certeza de que suas plantas esto aproveitando bem esse 
sol.
- Ah, esto mesmo! - retrucou o pai. - Na verdade, esto comeando a 
crescer.
- Quero que me mostre, depois do almoo disse Dorina.
Colocou o prato de ensopado diante do pai e serviu-lhe as verduras.
Percebeu, ento, que Rosabelle tirara muito pouco do repolho, enquanto 
que Peter se servira de quase todas as batatas, deixando s trs para o 
pai.
Dorina, porm, no disse nada e, depois de encher o copo do pai com a 
sidra que tinha ganho de um fazendeiro local, voltou para seu lugar. S 
ento fez seu prato com o que sobrara do ensopado e das verduras.
Embora nunca reclamasse, era difcil proporcionar refeies que a famlia 
apreciasse com a pequena quantia que o pai lhe dava para as despesas 
domsticas.
Se no fosse pela habilidade de Nanny em conseguir frangos, patos e 
pombos das esposas dos fazendeiros que frequentavam a igreja aos 
domingos, a dieta da famlia seria s  base de coelhos, pois era a carne 
mais barata.
Nanny sabia cozinhar, mas no sabia tornar apetitosos os pratos.
Dorina, entretanto, no podia pensar s na comida, pois tinha vrias 
outras preocupaes. A mais importante, no momento, era encontrar 
recursos para mandar Peter estudar num bom colgio. De preferncia em 
Eton, onde o pai e o av haviam estudado.
Quando no se preocupava com Peter, era com Rosabelle, que estava se 
transformando numa linda mocinha, excessivamente consciente de sua 
beleza.
Por isso vivia pedindo novos vestidos, chapus e sapatos, que custavam 
caro.
Ainda zangada com Dorina por haver lhe chamado a ateno, Rosabelle disse 
ao pai:
- O que o senhor acha, papai? Eu vi o novo conde hoje de manh! Ele 
estava cavalgando um maravilhoso corcel negro, diferente de todos os que 
j vi nos estbulos de Yarde.
- O novo conde? - repetiu o pastor, como se seu pensamento estivesse 
muito distante. - Ele demorou para chegar em casa.
- Ele esteve na Frana - disse Dorina -, com o exrcito de ocupao. S 
agora  que os soldados comearam a voltar.
- Ah, sim,  claro - retrucou o pai. -  bom que tenha algum, novamente, 
para cuidar de Yarde e de toda a propriedade.
- Espero que o conde perceba o que deve ser feito
- comentou Dorina, num tom ligeiramente repressivo.
O pai no respondeu e Rosabelle falou:
- Ouvi a senhora Champion contar a Nanny que
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deram uma festa de escandalizar na Casa Grande este fim de semana. Ela
disse que as mulheres pareciam rvores de Natal de to enfeitadas com
jias, e que os homens esvaziaram uma adega de tanto beber!
- Isso  mexerico - exclamou Dorina -, e voc no devia repetir uma coisa
dessas!
- S estou dizendo o que a senhora Champion contou a Nanny...
- Elas no sabiam que voc estava escutando!
- No pude evitar - falou Rosabelle -, pois a senhora Champion  meio 
surda e fala gritando!
Dorina achou que no valia a pena continuar aquela discusso. No achava 
bom nem certo que Rosabelle se interessasse tanto pelo que acontecia 
desde a volta do conde.
Tentou mudar a conversa, falando ao pai sobre o jardim. Porm seus irmos 
estavam alvoroados com as novidades, to raras, na pacata cidadezinha de 
Little Sodbury, onde tudo parecia sempre igual.
- Eu gostaria de ver os cavalos do conde - disse Peter. - Ser que eu 
poderia montar algum?...
- Voc deve ficar longe daquela cocheira! - disse Dorina, alarmada. - J 
lhe disse isso mil vezes desde que o conde chegou h quatro dias.
- Eles gostam que eu v l - protestou Peter. O velho Hawkins diz que eu 
sou muito bom para escovar cavalos e at j me deixou vrias vezes 
cavalgar em volta da cocheira.
- Era muito diferente. Ns conhecamos bem o velho conde e ele gostava 
muito de ns - disse Dorina.
- J expliquei milhares de vezes que no podemos nos aproveitar ou impor
nossa presena ao novo conde. Primeiro precisamos conhec-lo e saber se 
to gentil quanto era o tio dele.
- E se ele no quiser ser gentil conosco? - perguntou Rosabelle. - Ento 
o que faremos?
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- Ns nos arranjaremos sozinhos! - retrucou Dorina, rspida.
Olhou para o pai, do outro lado da mesa, que estava visivelmente com o 
pensamento longe, e disse:
- Estava imaginando, papai, que, como o conde no foi  igreja domingo, 
ser que seria certo o senhor ir
visit-lo?
O pastor olhou-a, como se o que a filha dissera custasse para lhe 
penetrar a mente, depois respondeu:
- Eu creio que, se o conde me quiser, vai mandar me chamar. Enquanto 
isso, minha filha, estou ocupado demais para ir at Yarde, correndo o 
risco de ser uma perda de tempo.
Dorina nem comentou que levaria menos de dez minutos para ir de l at a 
porta da Casa Grande. Contudo, tinha tambm a desconfortvel sensao de 
que poderia mesmo ser uma perda de tempo se o conde no quisesse v-lo e 
o mandasse de volta.
Por isso disse, em tom calmo:
- O senhor tem razo, papai. Talvez ele v  igreja no prximo domingo.
Falou por falar, mas achava isso pouco provvel.
Todo o vilarejo parecia bastante decepcionado, pois desde a chegada do 
conde ao lar ancestral, h quatro dias, no houvera ningum no banco da 
famlia Yarde na igreja, no domingo.
Estavam todos muito curiosos e compareceram em massa  pregao. A 
prpria Dorina olhou vrias vezes para a porta antes de comear a funo 
religiosa.
Agora, depois do que ouvira a respeito do conde e os mexericos corriam 
rpido no vilarejo -, estava certa de que ele no frequentava igreja e s 
por acaso teriam oportunidade de encontr-lo.
Foi para a cozinha levando os pratos e a travessa
vazia do ensopado. Nanny estava arrumando um pudim na travessa e 
cobrindo-o com gelia de morango.
- O reverendo no est comendo nada - disse ela- - No sei como ainda se 
mantm de p!
- Ele comeu todo o ensopado que pus no prato dele - disse Dorina -, e 
acho que gostou. Estava delicioso, Nanny.
- Eu fao o que posso - retrucou Nanny, meio rspida -, mas tambm 
milagre no d para fazer. Voc precisa pedir mais dinheiro para seu pai, 
seno vo morrer de fome a semana que vem.
- No adianta, Nanny. Ele no tem. Eu fiz as contas ontem  noite e no 
sobrou nada. Coitado, papai queria comprar um novo tipo de cacto de que 
ouviu falar...
- Ah, pelo amor de Deus, miss Dorina - disse Nanny, mordaz. - Veja se 
convence o pastor a plantar uma horta!
Dorina riu, um riso musical e agradvel.
- Mame j tentou isso, mas no conseguiu. Papai s gosta mesmo de 
cactos. Eu acho que  porque ele sempre quis viajar para a frica e o 
Brasil! Enquanto ele cultiva cactos, acho que viaja na imaginao.
- E  s assim mesmo que d para viajar hoje em dia - disse Nanny, 
colocando na bandeja pratos de sobremesa e o pudim.
Depois abriu a porta da cozinha para que Dorina passasse. Quando ela 
saiu, suspirou fundo e deixou-se cair numa cadeira.
Tinha mais de sessenta anos e, quando ficava de p por muito tempo, suas 
pernas doam. No inverno doam mais ainda, com reumatismo.
Todavia, naquele momento no pensava em si nem em suas dores. Preocupava-
se com aquelas crianas que amava e que vira nascer, achando injusto que 
tivessem de viver com to pouco quando, de acordo
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com o que se comentava, na Casa Grande jogava-se dinheiro fora como gua.
Nada acontecia em Little Sodbury sem que Nanny ficasse sabendo. Tinha 
sido a primeira a ser informada da chegada do novo conde e de todos os 
detalhes sobre os convidados dele que chegaram de Londres.
No era de surpreender que todos os habitantes do vilarejo, que moravam 
em casas de propriedade do conde de Yardcombe, estivessem interessados no 
novo senhor.
Yarde era uma das famlias mais antigas da Inglaterra, e todos que 
moravam ali sempre souberam que William, filho do sexto conde, herdaria 
tudo com a morte do pai.
Conheciam William desde que nascera, e para os mais velhos era quase como 
se fosse um filho. Tinham acompanhado seu crescimento, sofrido quando 
tivera sarampo e coqueluche, alegrando-se quando saiu para caar com o 
pai pela primeira vez, quando atingiu o primeiro coelho, pegou seu 
primeiro peixe no lago.
William era um deles, e contemplavam-no com amor e admirao e,  medida 
que crescia, at com certo
orgulho.
No houve, por isso, quem no sofresse quando William morreu lutando 
contra os franceses na pennsula.
Transferiram, ento, a afeio e o interesse para o irmo mais moo, 
Charles. Mas esse tambm morreu num acidente na Blgica, durante manobras 
do exrcito de Wellington, um ms antes da Batalha de Waterloo. Novamente 
ficaram todos muito abalados.
Para Dorina, que crescera junto com os dois, isso deixara uma cicatriz 
indelvel. Eles brincavam juntos e tanto os meninos tinham livre acesso  
casa do pastor quanto ela  Casa Grande. Era como se fossem
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irmos, e quando eles se foram ficou um vazio em sua vida.
Parecia-lhe impossvel que William, dois anos mais velho do que ela, e
Charles, um ano mais moo, jamais voltariam. Era difcil convencer-se 
disso e de que o ttulo e a Casa Grande ficariam para um primo deles que 
ela nunca vira e de quem no se sabia nada.
O primeiro primo do velho conde vivera no estrangeiro grande parte de 
sua vida e seu filho Oscar, embora tivesse sido educado na Inglaterra,
sempre passava as frias fora do pas.
Dorina ficou sabendo que ele sara da escola direto para o exrcito e 
fizera uma carreira de sucesso, subindo depressa de capito a major e 
chegando ao fim da guerra como coronel.
Na verdade isso era tudo o que se sabia sobre ele. Nunca estivera em
Yarde e o velho conde jamais falara dele. Alis, era at de se duvidar
que tivessem se encontrado.
- Papai, como Deus pde ser to cruel deixando William e Charles morrerem 
assim? - perguntara Dorina na ocasio. - Quem vai se importar conosco, 
agora? E com todas as pessoas que o antigo conde de Yardcombe protegia e 
orientava?
O pai colocou a mo em seu ombro, mostrando que entendia seus 
sentimentos, e disse:
- Acontecem muitas coisas estranhas na vida, filhinha. s vezes as
pessoas se rebelam, mas acabam descobrindo, quando menos se espera, que a
vontade do Senhor era o certo.
- No posso imaginar de que maneira pode ser certo William e Charles 
morrerem to cedo! - disse Dorina, revoltada.
- Eu sinto a falta deles como voc - disse o pastor. - Da mesma forma que 
sinto a falta de sua me.
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Havia tanta dor na voz dele que Dorina sentiu-se egosta de estar 
preocupada com seu prprio sofrimento, quando sabia que a vida era uma 
tortura para o pai por no ter mais a amada esposa a seu lado.
Tinham sido to felizes juntos que-nem importava terem pouco dinheiro. A 
casa era velha e precisava de uma boa pintura, mas, como a famlia era 
alegre, os aposentos pareciam sempre claros e ensolarados e os que os 
visitavam nem reparavam que as cortinas estavam desbotadas, os tapetes 
gastos e pudos e a moblia precisando de um bom conserto.
E, ento, numa fria noite de dezembro, em que nada conseguia aquecer a 
casa, a senhora Stanfield morreu.
Tinha contrado um resfriado que se transformara em pneumonia, e, antes 
que percebessem o que estava acontecendo, ela se foi.
O pastor ficou to abalado que Dorina temeu perder o pai tambm.
De um jeito ou de outro, enfim, conseguiu sobreviver a tanta dor. E agora 
que Dorina alimentava secretas esperanas de que o novo conde, percebendo
o aumento do custo de vida depois da guerra, aumentasse o pagamento do
pastor, aquela histria da festa na Casa Grande, no fim de semana, vinha
mostrar que no havia possibilidade de melhoras.
Parecia incrvel que o conde no tivesse chegado sozinho, ou talvez com
um nico amigo, para conhecer os criados da casa, os habitantes da
propriedade e os vizinhos.
A primeira coisa que souberam, assim que ele chegou em Londres, foi que 
reabrira a casa que ficara fechada por muitos anos devido  idade 
avanada e  falta de sade do antigo conde.
J havia mandado um administrador para Yarde para fazer algumas reformas 
antes que ele voltasse da
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Frana. Porm os habitantes do vilarejo acharam horrveis as mudanas.
O velho Burrows, o mordomo, que trabalhara na Yarde por mais de quarenta 
anos, estava agora aposentado, alm da senhora Meadows, a governanta, e 
vrios outros empregados da casa.
No incio os habitantes de Little Sodbury mal podiam acreditar no que 
estava acontecendo.
Todos eles, indignados, procuravam Nanny para conversar na cozinha, e 
Dorina entreouvia as vozes sempre com aquele mesmo tom de censura que 
ecoava pela casa toda. Compreendia muito bem o que estavam sentindo.
O novo administrador era um jovem que servira no exrcito com Oscar 
Yarde.
Dorina no o conhecia, mas j o vira no vilarejo, inspecionando algumas 
das casas e entrando no The Green Dragon onde, segundo comentrios, bebeu 
uma quantia de conhaque e no quis experimentar a cerveja local.
Parecia um tipo pretensioso e arrogante, e nada cavalheiro. Dorina, 
porm, procurava no o condenar do modo como o faziam os habitantes 
locais, desde que ele chegara ali.
Ouvira uma das empregadas da Casa Grande contar:
- Da eu disse ao administrador: " assim que sempre fizemos, sir", e ele 
me respondeu: "Pois quanto antes houver mudanas aqui, melhor".
Mudanas, mudanas... depois dessa conversa no se falava em outra coisa 
por ali. Logo Burrows aposentou-se e se mudou para uma casa velha que lhe 
foi oferecida. Parecia agora apenas um velho triste que perdera seu 
orgulho.
- Aquele homem no tem o direito de ficar no lugar do conde! - reclamara 
Nanny, brava, depois de
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saber de novas mudanas na Casa Grande. - Ele que se meta comigo para ver 
s uma coisa!
Dorina no pde deixar de achar graa, mas sabia que todos estavam 
revoltados com o administrador e at ela prpria. No entendia como o 
conde permitira que essas coisas acontecessem antes de ter ido 
pessoalmente tomar conhecimento da situao.
Quando j no esperava mais que o novo conde aparecesse, ficou sabendo 
certa manh que ele chegara inesperadamente de madrugada e estava 
aguardando um grupo grande para o fim de semana.
Dorina achava que no era esse o melhor meio de ele assumir seu reinado. 
Sim, porque Yarde era na verdade um reino que ele herdara pela morte dos 
dois jovens. No domingo, quando no viu ningum da famlia Yarde no banco 
da igreja, sentiu que o odiava.
Histrias das mais diversas circulavam entre a populao a respeito do 
que acontecia "l, na Casa Grande".
Dorina procurava no dar ouvidos, mas era impossvel no se interessar 
pelo que acontecia entre aquelas mulheres, enfeitadas e maquiadas como se 
estivessem num palco, e os cavalheiros, cujas atitudes eram apenas 
cochichadas nos ouvidos de Nanny.
Quando Dorina terminou de lavar a loua do almoo, Nanny falou:
- Vou at a cidade ver se consigo arranjar alguma coisa para o jantar.
No tem mais nada em casa e eu duvido que o senhor Banks deixe continuar
comprando fiado!
- Vou conversar com papai hoje  noite, mas duvido que ele tenha algum
dinheiro antes do ms que vem.
- At l j estaremos todos enterrados! - reclamou Nanny, rspida. - Se 
quer saber minha opinio, acho que algum devia dizer ao novo conde que, 
em
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vez de jogar dinheiro fora com bebidas e mulheres que no valem nada, ele
devia fazer alguma coisa pelos que esto sob sua responsabilidade!
Achava isso tambm, mas no adiantaria dizer nada.
Colocando seu chapu preto e um xale sobre os ombros, Nanny saiu com a 
sacola de compras.
Depois que ela saiu, Dorina pensou em ir at o jardim fazer companhia ao 
pai, mas sabia que ele preferia no ser perturbado e achou que seria 
melhor dar um passeio a p.
Da lembrou-se que no podia mais ir ao parque ou ao bosque. Parecia-lhe 
incrvel que o bosque, que significava tanto para ela desde a infncia, 
fosse agora inacessvel.
Sabia que Rosabelle tinha razo ao dizer que no tinha graa passear 
pelas estradas empoeiradas. Para Dorina o bosque tinha um encanto que 
sempre conseguia aliviar suas tristezas, uma magia difcil de explicar. 
Bastava caminhar por entre as rvores, ouvindo os pssaros. Sua 
imaginao ficava ativa, as fantasias se libertavam e parecia-lhe at que 
existiam fadas e drages.
Ficou sem saber aonde iria. Invadiu-a uma onda de raiva contra o novo 
conde, pice de tudo de ruim que acontecera desde a morte de William.
De repente percebeu que batiam  porta.
Sabendo que Nanny sara e no havia mais ningum para atender, correu 
para a cozinha e, ao abrir a porta, deparou com uma das mulheres do 
vilarejo.
- Boa tarde, senhora Bell. Se veio procurar Nanny, ela acabou de sair.
-  com a senhorita que eu quero falar... - respondeu a mulher, 
hesitante.
Dorina sorriu.
- Bem, eu estou aqui. Entre!
A senhora Bell entrou e Dorina, sentindo que a mulher
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tinha algo de importante para dizer, conduziu-a para a sala.
- Sente-se, senhora Bell, e conte-me o que a est preocupando. Espero que 
no seja nada com Mary e que ela esteja contente, trabalhando na Casa 
Grande.
-  justamente sobre Mary que vim falar com a senhora. Talvez eu devesse 
falar com o pastor, mas eu o respeito muito e fico um pouco 
constrangida... acho mais fcil falar com a senhora.
- Pode ficar  vontade comigo, senhora Bell, assim como sei que ficaria 
se minha me fosse viva e fosse conversar com ela. Ento, qual  o 
problema?
A senhora Bell respirou fundo e contou tudo.
Depois de ter se despedido de vrios de seus hspedes, que partiram para 
Londres depois do almoo, o conde entrou na biblioteca.
Parou por instantes, contemplando as centenas de livros que enchiam as 
prateleiras e que constituam uma das bibliotecas mais importantes do
pas.
Havia descoberto que a maioria dos livros no estava catalogada e
pensava, naquele momento, que assim que tivesse tempo iria contratar um 
supervisor.
Mandaria fazer um inventrio de tudo o que havia na casa e os livros 
seriam ento devidamente catalogados.
Foi at a janela e olhou para o parque, onde um veado se abrigava do 
calor na sombra das rvores.
Desde o primeiro instante achou que Yarde era mais grandiosa do que 
imaginara. Afinal, mal podia acreditar que era o dono de tal 
magnificncia. Sentira o mesmo h dezoito meses, quando soube que Charles 
Yarde morrera e, portanto, ele era o herdeiro direto do conde que, 
conforme disseram, estava morrendo.
Parecia inacreditvel que ele, que no tinha outras ambies alm de 
fazer carreira no exrcito, onde j
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conseguira um xito notvel, devesse, atravs dos infortnios da guerra,
herdar um ttulo antigo e reverenciado, uma casa e uma propriedade de que
sempre ouvira o pai falar com respeito e admirao.
Embora tivesse gostado de conhecer Yarde, nunca fora sugerido que devesse 
faz-lo, e ele no sentira maior interesse.
Estudara em Eton tambm, como os primos, mas eles eram bem mais jovens e 
s lembrava de ter convivido com William por menos de um ano.
Depois sara de Eton e ingressara direto no regimento de seu pai, cheio 
de ambio de distinguir-se, sabendo que a guerra lhe dava uma 
oportunidade para isso, o que no teria em tempo de paz.
Gostava da vida no exrcito e, para ser sincero, apreciara enormemente 
ocupar um posto muito importante no Exrcito de Ocupao.
Isso se devia, em parte, ao seu bom desempenho como soldado, e em parte 
ao fato de o velho conde de Yardcombe morrer logo depois de o duque de 
Wellington estabelecer-se na Frana.
Descobrir-se de repente com grande importncia social era algo que Oscar 
Yarde jamais esperara nem imaginara que lhe fosse acontecer.
Logo percebeu que sua posio na vida era agora muito diferente da que 
tivera como soldado inteligente, bonito e muito atraente.
No incio sentiu-se arrebatado pela ateno que subitamente passara a 
despertar, no s entre os diplomatas e polticos, como tambm entre as 
mulheres do mundo social que nunca o haviam notado at ento.
Como o duque de Wellington estava morando em Paris, assim que foi 
possvel um grande nmero de mulheres atraentes comeou a chegar da 
Inglaterra, todas apresentando excelentes desculpas: ou eram esposas, ou 
irms, ou noivas dos oficiais que acompanhavam
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o duque, ou ento tinham alguma relao com o embaixador britnico,
que ocupava o posto diplomtico mais importante da Europa naquele
momento.
Quaisquer que fossem suas razes para estarem em Paris, eram de 
estonteante beleza, e o conde de Yardcombe achava impossvel escapar a
seus encantos. Alis, ele no seria humano se deixasse de aceitar o que
agora lhe era to prontamente ofertado.
No era especificamente convencido, mas seria muito tolo se no 
percebesse que tinha boa aparncia e atraa as mulheres. Por isso, vira-
se envolvido em vrios romances enquanto no estava lutando contra o 
inimigo. com bastante tempo para divertir-se, embora trabalhasse muito 
tambm, pois Wellington exigia muito de seus oficiais, o novo conde 
descobrira que subira vrios degraus na escala social.
Mulheres de quem nunca ousara se aproximar agora o procuravam, deixando 
claro o que queriam dele. Alm disso, havia em Paris as mais fascinantes 
e lindas cortess que um homem poderia querer.
Nem  preciso dizer que eram extremamente caras, mas era impossvel para 
um homem viver em Paris por muito tempo sem saborear aquela experincia 
rara, experincia que no se encontrava em nenhuma outra capital.
Quando o exrcito de ocupao, por insistncia dos franceses, comeou a 
ser reduzido em nmeros e vrios oficiais puderam voltar para casa, a 
educao do conde de Yardcombe na arte do amor j havia adquirido novos 
horizontes, e ele se tornara to eficiente como amante quanto como 
soldado.
Voltou para a Inglaterra sentindo, pela primeira vez, curiosidade pelas 
novas propriedades que herdara e decidido a descobrir o quanto antes tudo 
o que pudesse em relao a elas.
No achava que perdera tempo em Paris, pois sabia
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que teria sido inconveniente, tanto para ele quanto para o duque de 
Wellington, se tivesse voltado antes.
No entanto, precisava recuperar o tempo que estivera fora, e por isso foi 
primeiro para Londres, a fim de reabrir a Manso Yarde, que estava pronta 
para receb-lo, apesar de ter ficado muitos anos fechada.
A Manso Yarde, na Berkeley Square, era imponente. Mal ele chegou, 
recebeu a visita de um primo de cuja existncia nem sabia, que se 
apresentou como Jarvis Yarde, e tratou de se fazer indispensvel, de um 
modo que o conde achou bastante conveniente.
Foi Jarvis quem indicou o melhor alfaiate, preferido do Regente e 
aprovado por todos os membros do White's, o melhor clube de Londres, ao 
qual o conde foi levado e imediatamente aceito como membro.
Foi Jarvis tambm quem o levou ao Wattiers e Carlton House onde, para sua 
surpresa, o prncipe Regente recebeu-o de braos abertos. Por fim, Jarvis 
levou-o s mais bem frequentadas casas de prazer, na St. James, que, 
apesar de tudo, no eram to boas quanto as de Paris.
Havia muito o que fazer em Londres, muitas pessoas para visitar e, de 
repente, sem inteno consciente, viu-se envolvido num romance arrebatado 
com lady Maureen Wilson.
Tinha conhecido vagamente lady Maureen em Paris, e, j que o marido dela 
ainda estava detido l por deveres do cargo, ela estava livre para ajud-
lo a desfrutar dos prazeres de Londres.
S depois de umas quatro semanas  que o conde disse com firmeza que 
pretendia ir para o campo e inspecionar Yarde.
Queria ir sozinho, e disse isso com bastante tato, Para conhecer a casa, 
a propriedade, e travar conhecimento com seus criados e vizinhos que 
desejassem conhec-lo.
23
Mas Jarvis tinha outras ideias. E, quando o conde deu por si, sem ter
percebido como acontecera, estava combinada uma festa para retribuir a 
hospitalidade dos que receberam em Londres e lady Mareen era sua
convidada especial.
Assim, todos os aposentos da Casa Grande ficaram lotados, ecoando risos e 
vozes.
O conde viu-se  cabeceira da enorme mesa de banquete onde seus 
ancestrais haviam sentado.
As velas nos candelabros de ouro tremeluziam, tal como as jias das 
convidadas, com seus decotes ousados.
Foi uma festa luxuriante, e ele no pde deixar de se divertir com lady 
Maureen, mas ficou sem tempo para fazer as coisas que pretendia.
Agora que a maioria dos convidados tinha partido e o restante estava de 
sada, ele se autocensurou, decidido a comear o trabalho. Tinha certeza 
de que havia muito para ser feito, e isso o enchia de entusiasmo.
Ali estava algo totalmente novo, uma tarefa complicada e difcil, dando-
lhe a sensao de estar indo para uma batalha cujo xito ou fracasso 
dependesse totalmente dele.
Ouviu a porta da biblioteca abrir-se e virou-se, esperando ver algum dos 
convidados remanescentes. Porm, o mordomo anunciou:
- Senhorita Dorina Stanfield, mylord! Uma moa entrou e bastou um olhar
para que o conde percebesse que ela era muito jovem, bonita, adorvel, e
extremamente mal vestida.
 medida que se aproximava, devagar, ele notou, surpreso, que ela o 
encarava abertamente e em seus grandes olhos acinzentados refletia-se uma 
inconfundvel expresso de raiva e desagrado.
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CAPITULO II

O conde caminhou para Dorina e estendeu a mo.
- Como vai, miss Stanfield?
Para sua surpresa, ela ignorou a mo estendida e fez uma breve mesura 
antes de dizer:
- Vim aqui para falar com o senhor, my lord, sobre um assunto muito 
importante.
O modo como ela acentuou a palavra "importante" fez o conde erguer as 
sobrancelhas, mas ele disse simplesmente:
- Sente-se, por favor, e fale-me de que se trata.
Por instantes pensou que a moa fosse recusar. Porm, depois, ela se 
encaminhou para uma cadeira de espaldar alto, que parecia a mais austera 
em meio a outras mais confortveis, e sentou-se na beirada.
As costas eretas, as mos no colo, e quando olhou para o conde seus olhos
tinham uma expresso que ele jamais vira no rosto de outra mulher.
Houve um breve silncio, como se ela procurasse as palavras, at que 
Dorina falou:
- Tenho certeza, my lord, de que o senhor no
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sabe que entre as mulheres que sua nova governanta
contratou est uma jovem chamada Mary Bell...
Ela enfatizou a palavra "nova" e o conde interrompeu-a para dizer:
- Minha nova governanta? H algum motivo especial, miss Stanfield, para 
que eu no devesse ter uma?
- Isso  com o senhor, tny lord. O senhor contrata quem quiser, mas mal 
posso acreditar que o que acabei de ouvir da me de Mary tenha acontecido 
em Yarde!
- O que aconteceu? - perguntou ele, brusco.
- Mary Bell tem s dezesseis anos. Ela foi procurar a me, hoje de manh, 
muito abalada, porque ontem  noite um dos convidados de sua festa tentou
violent-la!
O modo de Dorina falar j era em si uma acusao, mas o conde deixou-a 
prosseguir:
- Mary correu para pedir ajuda  governanta, mas tudo o que ouviu dela 
foi que da prxima vez seria melhor fazer tudo o que os amigos do conde 
quisessem, seno seria despedida sem referncias, e sua famlia seria 
despejada da casa!
Dorina conseguiu falar lentamente e com clareza. Depois, como se impelida 
pelos sentimentos, ergueu-se e acrescentou, furiosa:
- Como  que uma coisa dessas pode acontecer em Yarde, onde sempre fomos 
to felizes e onde todos os empregados de seu tio sempre se sentiram 
parte da
famlia?
Agora as palavras saam aos tropees e ela falava com impetuosidade, com 
uma raiva que a fazia estremecer.
- Suponho que esteja bem certa do que est falando
- disse o conde -, de que o que lhe foi contado no seja produto da 
fantasia histrica de uma adolescente.
Dorina respirou fundo.
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- J devia ter imaginado que essa seria sua reao, my lord!
Agora estava ainda mais furiosa.
- Seu novo administrador demitiu todos os antigos empregados que, como j 
lhe disse, se sentiam parte da famlia e-tinham tanto orgulho de Yarde 
que jamais deixariam qualquer coisa de errado acontecer!
O conde fez meno de falar, mas Dorina prosseguiu:
- E no lugar deles contratou empregados que no seriam aceitos em 
qualquer lar decente. Imagine aqui, ento, se seu tio fosse vivo!
- No posso acreditar que isso seja verdade! disse o conde, afinal.
- Se acha que eu mentiria sobre o que est acontecendo, ento s posso 
dizer que lamento profundamente que o senhor tenha tomado o lugar de um 
homem que foi reverenciado e respeitado por todos com quem ele teve 
contato e... amado por todos... que o serviram...
Fez uma pausa, no s para tomar flego, mas porque a voz comeava a 
tremer e seus olhos encheram-se de lgrimas, que ela enxugava em vo, com 
impacincia.
O conde ergueu-se devagar, depois disse:
- Eu acho, miss Stanfield, que devemos comear de novo, do princpio. 
Primeiro explique-me por que est preocupada com o que acontece nesta 
casa, e depois ajude-me a ter certeza de que nenhuma das acusaes que 
fez  exagerada ou foge  verdade.
Falou de um jeito calmo, conciliador, ao mesmo tempo com um certo tom de 
autoridade, que fez Dorina sentir que fora dramtica demais.
Porm ainda estava furiosa e temendo que o conde considerasse tudo o que 
dissera mentira e sem importncia.
com esforo sobre-humano obrigou-se a sentar de
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novo, sabendo que era importante ficar, embora a vontade fosse correr
dali.
O conde tambm sentou-se, e disse com aquela voz calma, que conseguia 
amainar o clima entre eles.
- Voc foi anunciada como miss Dorina Stanfield. Mora no vilarejo?
- Meu pai  o pastor daqui, my lord.
- Ah, agora entendo. Tudo o que acontece, ento, que os habitantes acham 
perturbador, correm para pedir ajuda ao pastor. Mas por que desta vez 
procuraram voc?
- A senhora Bell  uma mulher respeitvel e decente, e ficaria 
constrangida de falar... essas coisas
a meu pai.
- Ento preferiu contar a voc, que, se me permite dizer,  muito jovem e 
evidentemente inexperiente nesses assuntos.
- Se com "inexperiente" o senhor quer dizer que no estamos acostumados 
com esse comportamento em Little Sodbury, my lord, ento isso  verdade. 
Depois, a senhora Bell s podia falar comigo, j que minha me no  mais 
viva. Sempre fomos protegidos por arde e seu tio, o conde, sempre nos deu 
exemplo de nobreza, dignidade, e os habitantes daqui procuravam 
corresponder na mesma medida.
Dorina falava com simplicidade, de um modo que o conde no pde deixar de 
achar bastante comovente. E ela prosseguiu:
- Tivemos tambm os exemplos dos filhos de seu tio, William e Charles, 
que foram amados e respeitados por todos do vilarejo.
Lanou ao conde um inconfundvel olhar de hostilidade antes de 
acrescentar:
- No posso imaginar que qualquer dos cavalheiros que costumavam 
frequentar Yarde antigamente tivessem um comportamento igual ao do seu 
hspede
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ontem  noite, nem que algum dos antigos empregados tivesse a atitude da 
sua nova governanta!
O conde ficou em silncio por alguns momentos, depois disse:
- Posso entender, miss Stanfield, que tenha ficado chocada com o que 
ouviu, e lamento profundamente que um de meus hspedes, se  que  
verdade, tenha se portado dessa maneira com uma de minhas empregadas.
- Mas claro que  verdade! Mary no costuma mentir, como pode lhe 
confirmar qualquer um do vilarejo!  reservada, sempre muito discreta. Se 
est pensando que talvez ela tenha incentivado os avanos do cavalheiro 
em questo, posso lhe garantir que ficou realmente abalada com o que ele 
sugeriu, e apavorada porque aqui, no campo, jamais pensamos que pudesse 
haver tanta... perversidade.
Antes que Dorina pudesse dizer mais alguma coisa, o conde falou, seco:
- Ento, miss Stanfield, s posso dizer que vocs tm muita sorte!
Ao dizer isso pensou na atitude dos homens da sociedade, tanto em Paris 
quanto em Londres, sempre prontos a perseguir uma mulher que os atrasse, 
qualquer que fosse seu status.
O conde estava mesmo extremamente aborrecido com o fato de algum hspede 
seu ter ultrajado a sensibilidade de uma jovem criada.
Contudo, antes de condenar o cavalheiro em questo, queria ter certeza 
absoluta de que a histria no era fruto da imaginao histrica de uma 
adolescente, ou que talvez ela quisesse se fazer mais importante do que 
era.
No esperava, porm, que Dorina voltasse ao ataque.
- Se o senhor vai arranjar justificativa, my lord,
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para uma atitude que qualquer homem decente acharia ultrajante e 
revoltante, ento acho que no tenho mais nada a dizer sobre o assunto. 
S posso lhe pedir, se tem algum senso de justia, para no levar adiante 
a ameaa de sua governanta e no despejar os Bell, que serviram  famlia 
Yarde durante a vida toda.
- Voc acredita mesmo que eu faria uma coisa dessas? - perguntou o conde, 
com aspereza.
Embora achasse uma experincia diferente ser censurado com tanta raiva 
por uma jovem to bonita, no pde deixar de pensar que ela estava indo 
longe demais.
- No vejo por que no acreditar - disse Dorina.
- O que j foi feito em Yarde por seu administrador aterrorizou todos que 
habitam a propriedade, e meu pai ficou muito chocado, embora ele ache que 
o senhor no lhe daria ouvidos.
- Como pastor dessa parquia, acho que  dever dele dizer-me qualquer 
coisa que possa estar afetando o nome da famlia! - retrucou o conde, 
severo.
Dorina arregalou os olhos, fitando-o atnita.
- O senhor acha que todo mundo no ficou chocado com o modo pelo qual os 
antigos empregados foram despedidos e afastados da casa, como Burrows 
foi, depois de quarenta anos de servio?
- Quem  Burrows?
- O mordomo. Ele sempre foi conhecido por preparar os lacaios melhor do 
que ningum no pas. E mantinha a prataria brilhando tanto que a gente 
podia
se ver refletida.
Dorina fez uma pequena pausa e prosseguiu:
- E a senhora Meadows, a governanta, foi afastada com uma aposentadoria
inadequada que mal dar para viver, e mandaram-na morar numa casa cujo
telhado est cheio de goteiras e as janelas esto quase todas quebradas.
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O conde continuava calado, e Dorina falou, com voz embargada:
- Como o senhor pde ter feito essas coisas... Como pde ter sido to 
cruel com pessoas que amavam William e Charles como os prprios filhos... 
e que teriam dado a vida por seu tio?
Novamente seus olhos encheram-se de lgrimas e ela se virou de costas 
para o conde, encaminhando-se para a janela.
Ele no disse nada, e depois de instantes ela voltou a falar, num tom 
diferente.
- Este lugar  to lindo e adorvel! Todos na cidade queriam trabalhar 
aqui! Assim que tinham idade suficiente comeavam a pensar nisso, e a se 
preparar para vir para a Casa Grande.
- Est me dizendo que essa atitude mudou?
- Claro que mudou, e isso  resultado de suas ordens. O senhor disse ao 
major Richardson, seu administrador, para se livrar de todos os velhos, e 
o senhor aumentou o aluguel dos fazendeiros enquanto todos os outros 
senhorios do condado e da Inglaterra baixaram o deles por causa da crise 
na agricultura agora que a guerra acabou.
- Isso  verdade?
- Outra vez o senhor est duvidando da minha palavra? - disse Dorina, 
brava. - Se o senhor no acredita em mim, my lord, pergunte ao major 
Richardson, que poder lhe mostrar os livros dos aluguis. Pergunte a 
quem quiser, no vilarejo, o que aconteceu com as famlias que sempre 
serviram os Yarde, e pergunte a Mary Bell o que aconteceu ontem  noite!
De novo as palavras se atropelavam, e o conde pde ver que seu corpo 
esguio, recortado contra a janela, tremia de raiva.
O que ela estava lhe dizendo era inacreditvel, mas sabia que devia 
investigar imediatamente.
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Houve um silncio prolongado, e, como Dorina parecia no ter mais nada a 
dizer, o conde falou:
- Voc me surpreendeu, miss Stanfield, e eu lhe garanto que no tinha 
conhecimento de que nenhuma dessas coisas estivesse acontecendo na minha 
ausncia.
Dorina virou-se.
- O senhor est negando que o major Richardson
seguiu ordens suas?
- Eu mandei o major Richardson de Paris para c porque meu dever me 
impedia de vir pessoalmente. Fiquei sabendo que o senhor Andrews, que 
administrava a propriedade no tempo de meu tio, tinha morrido, e o 
procurador sugeriu que eu indicasse um outro administrador para 
substitu-lo.
- O senhor Andrews era um homem muito consciencioso, que conhecia e 
entendia os problemas e dificuldades de todos que trabalhavam aqui. O 
major Richardson fez mudanas e deu ordens em seu nome, e nem sequer 
visitou meu pai ou qualquer outra pessoa
da vizinhana.
O conde achava difcil de acreditar, mas no disse
nada. Em vez disso falou;
- O que vou lhe propor, miss Stanfield,  que me deixe descobrir 
exatamente o que aconteceu na minha ausncia e ento.
Antes que pudesse prosseguir, foi interrompido pela porta que se abriu e 
lady Maureen irrompeu biblioteca
adentro.
Ela estava pronta para partir para Londres, usando um escandaloso vestido 
vermelho de seda e tafet, decotado. No pescoo, um colar de rubis e 
diamantes. Nas orelhas, brincos iguais, e os cabelos escuros parcialmente 
cobertos por um chapu enfeitado com penas de avestruz.
Era muito vistosa e muito bonita. O rosto estava habilidosamente maquiado 
conforme a moda, com p, ruge e cor nos lbios.
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Caminhou para o conde, dizendo:
Francamente, Oscar, como pde demorar tanto,
sabendo que eu estava esperando?
Ento, como se de repente percebesse que ele no estava sozinho, olhou de 
relance para Dorina e disse em tom zombeteiro:
- Ser que j est levando a srio seus deveres de senhorio? Por acaso  
uma de suas belas ordenhadoras? Ah, estou morta de cimes!
Riu com sarcasmo, e chegando perto do conde passou a mo no rosto dele, 
dizendo:
- Pobre Oscar! Estou vendo que logo estar s voltas com problemas 
interessantssimos, referentes a ervilhas, batatas e porcos.
O conde afastou a mo de Maureen de seu rosto e interrompeu-a com um 
comentrio seco:
- Est cometendo um engano, Maureen. Esta  miss...
Mas nem teve tempo de acabar a apresentao, pois Dorina virou-se 
depressa e saiu pela porta que a outra deixara aberta,
- Espere! - o conde tentou impedi-la.
Mas lady Maureen j passara os braos em torno de seu pescoo e dizia, 
com seus lbios rubros roando os dele:
- Oscar, querido, no seja tolo! Eu lhe garanto que vai achar tediosa a 
vida no campo. Mas se voltar para Londres comigo eu lhe prometo que vai 
se divertir com tudo o que fizermos juntos!
Ela falava com seduo, porm o conde disse com firmeza, e um certo tom 
de aspereza:
- J lhe disse, Maureen, que no vou voltar para Londres enquanto no 
tiver explorado toda a minha Propriedade. E acabei de descobrir que vou 
ter muito
O que fazer aqui.
Lady Maureen encolheu os ombros com graa.
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- Ento no me culpe quando ficar sem distraes. Mas, Oscar... eu ou me
aborrecer tanto sem voc...
O conde ia responder quando surgiu um homem na porta, dizendo:
- Vamos, Maureen! Os cavalos esto impacientes e eu tambm!
- J estou indo, Jarvis - retrucou Maureen. S estava tentando convencer
seu primo a mudar de ideia e voltar para Londres.
- J esgotei todos os argumentos tentando isso, ontem  noite - falou
Jarvis. - Tenho certeza de que Oscar logo vai se cansar e se entediar,
assim que descobrir que no campo nada acontece, entra ano, sai ano. Da
ele vai correr para Londres.
Olhou para o conde de modo provocador. Era um belo rapaz, extremamente 
bem vestido, quase um dndi, e era visvel que gastava muito com roupas.
Alis, o conde desconfiava que ele gastava muito de diversas maneiras.
Jarvis escancarou a porta, dizendo:
- Oscar, espero que tenha gostado de sua primeira festa. No queria 
deixar voc aqui, sozinho, mas prometi levar Maureen de volta para 
Londres. Amanh  noite haver uma festa que no queremos perder. Fez uma 
pausa antes de acrescentar: - Por que no muda de ideia e vem conosco? Eu 
lhe garanto que no
vai se arrepender.
- J fiz outros planos - retrucou o conde, com calma. - Como j lhe
disse, Jarvis, h tanta coisa para eu resolver por aqui que no tenho
mais tempo para festas por enquanto.
- Mas para mim voc deve ter tempo... - disse lady Maureen, com voz 
suave.
Mais uma vez o conde desvencilhou-se dos braos que o envolviam e disse:
- Voc ouviu Jarvis dizer que os cavalos estavam
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impacientes e acho que os que vo com voc tambm esto comeando a 
ficar.
- Ele tem razo - concordou Jarvis. - Vamos, Maureen. No adianta 
ficarmos aqui.
Lady Maureen beijou o conde apaixonadamente, depois disse:
- At logo, meu querido e maravilhoso Oscar. Estarei pensando em voc 
todos os minutos e me sentindo terrivelmente sozinha at voc voltar para 
mim!
O conde segurou-a pelo brao e conduziu-a em direo ao hall.
Alguns outros hspedes esperavam-nos l, e quando o conde deparou com a 
cara dissoluta de sir Roger Chatam, que era amigo ntimo de Jarvis, 
desconfiou que ele poderia ser o homem que tentara violentar a jovem.
Concluiu que sr Roger era uma pessoa de quem jamais poderia gostar e em 
quem nunca confiaria.
S o convidara para Yarde por insistncia de Jarvis, que o achava um bom 
companheiro e excelente jogador de cartas. E se acaso descobrisse que ele 
era mesmo culpado, aquela seria a ltima vez que entrava em sua casa!
No entanto, como no pretendia fazer cenas, despepiu-se educadamente de
sir Roger e dos outros.
Lady Maureen ficou com a ltima palavra.
- Se at o fim da semana no estiver em Londres, Oscar, vou fazer Jarvis 
me trazer de novo at aqui. Sabe que no posso viver sem voc...
O conde murmurou uma resposta evasiva, sem se comprometer, ajudou lady 
Maureen a subir na carruagem que seu primo dirigia, e antes que ela 
pudesse dizer mais alguma coisa virou-se para ajudar as outras duas 
mulheres.
Partiram todos acenando e gritando agradecimentos Pela festa to 
agradvel.
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uuando os cavalos j estavam longe na estrada, o conde virou-se e deparou 
com um hspede remanescente, Harry Harrington.
- Bem, graas a Deus est tudo terminado!
- Foi o que achei que estivesse sentindo - disse Harry. - Da prxima vez 
que der uma festa, sugiro que escolha seus convidados, em vez de deixar 
por conta de Jarvis.
- Estava pensando justamente isso - retrucou o conde. - No gosto desse 
Chatam!
- Nem eu. No vale nada. J ouvi vrias histrias desagradveis sobre
ele.
- Que tipo de histrias?
Harry fez uma pausa, depois respondeu:
- Ah, os vcios comuns que voc e eu achamos revoltantes. Sabe como ... 
atrao por moas muito jovens, quase meninas, e coisas desse tipo.
O conde estreitou os lbios e disse, bravo:
- E por que diabos no me contou? O amigo olhou-o surpreso.
- No tive oportunidade. E, depois, de que adiantava, se ele j estava 
aqui como seu hspede?
- Esse tipo de convidado no pretendo receber de novo - disse o conde. - 
H mais uma coisa, Harry, que preciso conferir. Espere-me na biblioteca, 
no devo
demorar.
- Vou aproveitar para ler os jornais - disse Harry em tom alegre, e se 
encaminhou para a biblioteca.
Ele e o conde tinham estudado na mesma escola e entrado para o regimento 
no mesmo dia. Depois o conde dera um jeito de pedir do Duque de 
Wellington que o mantivesse na Frana, tambm, com o Exrcito de 
Ocupao. Assim, ambos desfrutaram Paris juntos.
Quando chegou a ocasio de voltarem para casa, Harry comentou:
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O que  demais, enjoa! J estou com indigesto
de pat de foie gras e vou achar bom voltar ao roast beej e torta de
ma.
Eu tambm - disse o conde -, e, como vou
ter muito que fazer na Inglaterra, vou precisar de sua ajuda, Harry.
- Seu pedido  uma ordem, amo! - riu Harry. O conde sabia que Harry faria 
qualquer coisa que
lhe pedisse e achou que deveria contar-lhe tudo o que a filha do pastor 
lhe dissera, para ouvir a opinio dele.
Quando Harry entrou na biblioteca, o conde olhou em redor e percebeu que 
Crter, o mordomo, no estava no hall e no estivera l durante a sada 
dos hspedes.
Achou um tanto estranho e perguntou a um lacaio:
- Onde est Crter?
O empregado hesitou em responder:
- Acho, my lord, que o senhor Crter est descansando.
- Descansando? A essa hora do dia? Instintivamente olhou para o grande 
relgio antigo
ao p da escada, depois falou, severo, com o lacaio:
- Pois encontre Crter onde ele estiver e diga para vir falar comigo!
- Eu acho que ele est na copa, my lord - murmurou o empregado.
- Esquea. Fique aqui no seu lugar que eu vou procur-lo pessoalmente.
Atravessou o hall e encaminhou-se para o corredor que levava  
dependncia de servio.
Sabia que era costume depois do almoo o mordomo ter uma hora de folga, 
mas isso no justificava o fato de Crter no estar presente no hall na 
hora da despedida dos convidados.
Alm do mais, achava que as refeies no estavam
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sendo servidas como era de se esperar, e isso era falha do mordomo que o
major Richardson contratara, Decidiu que, depois de tudo o que ouvira de
miss Stanfield, falaria com Richardson primeiro para descobrir por
que ele mandara embora os antigos empregados de modo to arbitrrio e
injusto. Devia haver algum
motivo.
Richardson era oficial de outro regimento e estava voltando para a
Inglaterra para ser dispensado. Lembrava-se vagamente de t-lo ouvido
perguntar quando o contratara para administrador:
- O que exatamente o senhor quer que eu faa enquanto no chega, my lord?
-  difcil responder - retrucara o conde -, j que nunca estive em 
Yarde. Mas sei que meu tio estava muito velho quando morreu, portanto as 
coisas podem estar um tanto descuidadas. Faa o que puder para atualiz-
las e para trazer um pouco de juventude e vitalidade a um lar 
envelhecido.
Tinha rido ao falar isso, mas agora achava que talvez Richardson o 
tivesse interpretado literalmente.
- Preciso descobrir exatamente o que aconteceu
- disse ele para si, e percebeu que estava passando diante da sala do 
administrador. Abriu a porta e ficou petrificado com a cena que viu.
Richardson, que sempre fora um soldado de boa aparncia, elegante com seu 
bigode, estava reclinado numa poltrona diante da lareira.
Sentada nos joelhos dele estava uma mulher corpulenta, de rosto 
avermelhado, que se apresentara como governanta. Estava com um brao em 
torno do pescoo do administrador, e na poltrona em frente estava Crter, 
o mordomo, em mangas de camisa, com sua casaca jogada displicentemente no 
cho, ao lado dele.
Os trs seguravam taas de vinho, e na mesa havia uma garrafa vazia e 
outra pela metade.
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Era o excelente vinho que fora servido  refeio e o conde, alm de no 
gostar do que via, sentiu-se insultado.
por instantes ficou apenas parado, olhando, como se no pudesse acreditar 
naquela cena.
Ento, o major Richardson falou com voz de bbado:
- Est precisando de mim, my lord?
Ao dizer isso, fez um esforo para se levantar da poltrona,
desequilibrando a mulher que estava em seus joelhos e fazendo-a derramar
vinho no vestido.
- Preste ateno, seu desajeitado! - gritou ela, com vulgaridade.
O conde entrou na sala, aproximando-se deles. Crter ergueu-se sem 
firmeza.
- Podem continuar como esto - disse o conde. Daqui a duas horas quero 
vocs fora desta casa. Esto todos despedidos sem referncias e sem 
pagamento!
Virou-se e saiu da sala, fechando a porta calmamente.
Voltou para o hall, censurando-se pela tolice de ter trazido consigo 
muitos hspedes e dado aquela festa, o que o impediu de ver o que estava 
acontecendo na propriedade que acabara de assumir.
Dorina estava tirando a mesa do ch, depois que o pai sara, e os irmos 
comiam um ltimo pedao de bolo.
- Voc deve ter lio de casa para fazer, Rosabelle - disse ela. - Sei 
que Peter tem.
- Estou cansada de estudar! - protestou Rosabelle. - J fiquei muito 
tempo na aula com miss Soames, agora quero me divertir!
- Eu sei, irmzinha, mas sabe muito bem que miss Soames no pode lhe 
ensinar, nas poucas horas de aula, tudo o que voc precisa aprender.
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- Se quer saber, no acho que ela seja boa professora.
-  a melhor da cidade e a nica que podemos
ter - retrucou Dorina.
Falou com certo tom de desespero, porque sabia que a irm precisava mesmo 
de uma preceptora mais experiente.
Tentara persuadir o pai a dar aulas a Rosabelle mas, embora ele tivesse
prometido, nunca achava tempo e acabava esquecendo. Ou ento a aula se
transformava em simples conversa.
O mesmo aplicava-se a Peter, embora com ele tivessem tido mais sorte,
encontrando um professor de Oxford, aposentado, que morava no vilarejo
vizinho. Como se aborrecia de no fazer nada e era amigo do pastor,
concordara em dar aulas a Peter por uma quantia irrisria. Por isso o
menino era bem instrudo para sua idade.
Por outro lado, Dorina achava que um professor mais moo poderia ensinar
melhor vrias matrias do que um homem de mais de setenta anos.
Desconfiava que o velho professor no estivesse atualizado em vrios 
assuntos que fariam falta a Peter se ele fosse estudar num internato 
particular.
Passava horas sem conseguir dormir, pensando em como poderia arranjar 
dinheiro para custear os estudos dele. Chegava at a criar fantasias, 
imaginando que algum colecionador acharia o cacto de seu pai original e 
raro, e ofereceria uma grande quantia por ele; ou ento que havia 
escondido no poro um velho quadro esquecido e empoeirado, e que acabava 
se revelando uma obra-prima, valendo uma fortuna.
Mas a manh chegava, e ela precisava encarar a dura realidade de ter 
apenas alguns trocados para toda a despesa domstica.
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Perguntava-se milhes de vezes o que fazer e nunca encontrava uma 
resposta. Rosabelle comeu a ltima garfada de bolo e disse:
- Espero que o jantar esteja bom, Dorina, porque, para ser sincera, ainda 
estou com fome.
- Eu tambm! - disse Peter. - No tinha quase nada no lanche.
- Sinto muito, meus amores - retrucou Dorina.
- Vou ver o que posso fazer para hoje  noite. Falou com otimismo, mas 
tinha a desagradvel sensao de que a despensa estava vazia, e Nanny 
diria que teriam de se contentar com batatas e alguma verdura do quintal.
De repente Rosabelle, que j estava no hall, deu um grito de entusiasmo e 
voltou correndo para a sala de jantar.
- Dorina! - exclamou. - H uma carruagem a fora, linda como nunca vi, e 
o cavalheiro que est descendo de l  o conde, eu sei. Ele veio nos 
visitar! Veio de verdade!
Por um momento Dorina ficou paralisada, depois disse:
- V fazer sua lio, Rosabelle, e no diga a papai que o conde est 
aqui. Quero falar com ele a ss.
- Por qu? O que vai dizer a ele?
- Isso  comigo. Faa o que lhe disse.
- Mas eu quero v-lo, quero conhec-lo! - protestou Rosabelle.
Como Nanny no estava, Dorina foi obrigada a atender  porta.
- Boa tarde, miss Stanfield. Gostaria de entrar e conversar com voc, se 
no est muito ocupada.
- No tenho muito tempo, mesmo, my lord disse Dorina com frieza, depois 
de ter feito a mesura.
- Mas, por favor, entre. Rosabelle adiantou-se, depressa.
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- Sei que o senhor  o novo conde! - disse ansiosa e afoita. - Vi o 
senhor hoje de manh cavalgando no parque, montado num corcel magnfico!
- Rosabelle! - disse Dorina, severa. Depois virouse para o conde. - Peo 
desculpas, my lord, por minha irm e meu irmo terem ido ao parque sem 
sua permisso. Mas  que antes nos era permitido.
- Por favor - suplicou Rosabelle, antes que o conde pudesse falar -, ser
que poderemos ir l ainda?  horrvel s caminhar pelo vilarejo quando
seu bosque  to lindo!
- Podem ir quando quiserem, ser um prazer retrucou o conde.
Rosabelle deu um gritinho de entusiasmo.
- Eu sabia que o senhor iria permitir, mas Dorina foi muito rgida 
conosco e disse que no devamos impor nossa presena para o senhor.
- Pois eu garanto que no esto se impondo respondeu o conde.
- Obrigada! Ah, muito obrigada! O senhor  muito gentil... e cavalga
maravilhosamente bem!
- Gostaria de ver seu corcel tambm - disse uma voz vinda da escada.
E, antes que Dorina pudesse fazer qualquer coisa, Peter entrou correndo 
no hall.
- Quando o antigo conde era vivo - disse o menino -, o velho Hawkins 
costumava me deixar ajud-lo a cuidar dos cavalos. Ele dizia que eu era 
melhor do que os cavalarios, mas agora Dorina no quer me deixar ir l.
O conde olhou de relance para Dorina com um brilho zombeteiro no olhar.
- Estou vendo que a irm de vocs  muito severa. Se estava esperando 
minha permisso, j a tem. Pode ir  cocheira quantas vezes quiser. Tenho 
certeza de
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que no vai fazer nada para atrapalhar meus cavalarios.
- No, claro que no! - exclamou Peter. - E obrigado, muito obrigado!
- E agora - disse Dorina com severidade - querem fazer o favor de subir 
para fazerem as lies? O senhor conde est com pressa.
- Ah, agora que posso ir ao parque, melhorou bastante! - falou Rosabelle, 
num impulso.
Dorina conduziu o conde para a sala, e ele notou que ela era a mulher 
mais bonita que j vira em sua vida. Sem o chapu barato que usava de 
manh, quando fora procur-lo, o rosto ficava mais visvel.
com aqueles cabelos dourados e os olhos cinzentos, mais parecia uma deusa 
do Olimpo que tomara a forma humana, mesmo usando um vestido simples de 
algodo, meio encolhido, que alis revelava a perfeio de seu corpo.
O conde interrompeu seu devaneio para falar.
- Antes de comearmos o assunto, permita-me, miss Stanfield, que lhe diga 
o quanto achei seus irmos encantadores. A menina, sem dvida, daqui a 
alguns anos ser uma beleza!
- Sei que est querendo ser gentil, my lord, mas acho, por motivos que 
prefiro no dizer, que seria melhor para eles no se envolverem com o 
senhor de modo algum.
O conde sentou-se, sem ser convidado, e falou:
- Como acho desgastante ficar discutindo o tempo todo, miss Stanfield,
vou dizer logo que descobri que voc tinha razo em tudo o que me disse.
Peo humildemente desculpas por ter duvidado de algo que para mim foi uma 
surpresa.
Dorina arregalou os olhos, atnita com o pedido de desculpas. Ele 
percebeu e prosseguiu:
- Tenho certeza de que ficar contente de saber
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que despedi sumariamente o major Richardson, a mulher que ele contratou
como governanta e o mordomo, Crter. J foram todos embora de Yarde, antes
de  eu vir para c!
- Fico contente, mesmo! Muito contente!
- Agora que estou completamente sem empregados, miss Stanfield, vim 
recorrer a voc para substitu-los o mais rpido possvel.
Dorina olhou para ele, mal podendo acreditar no que ouvira, depois falou:
- O senhor... est mesmo dizendo que... que  para eu escolher seus novos
empregados, my lord?
- Se voc no fizer isso, no tenho a menor ideia de onde encontrar as 
pessoas certas.
Dorina cruzou as mos.
- Sei que Burrows, o antigo mordomo, ficar feliz em voltar, e tenho 
certeza de que conseguir convencer a senhora Meadows, embora ela tenha 
ficado bastante amargurada com o tratamento que recebeu.
- Sabe que sou um desconhecido aqui. No sei o que fazer para reparar os 
erros que voc me revelou, e que infelizmente eram verdadeiros!
Dorina respirou fundo.
- Posso lhe mostrar as casas de Burrows e da senhora Meadows.
- Acho que facilitaria muito as coisas se voc fosse comigo e me 
apresentasse a essas duas pessoas, que sabem muito mais sobre minha casa 
do que eu.
- O senhor est falando srio?
- Eu sempre falo srio. E, para melhorar sua impresso sobre mim, 
gostaria de lhe dizer que no costumo me enganar com o carter de algum, 
como aconteceu com Richardson. Li as credenciais dele fornecidas pelo 
oficial comandante e fiquei bastante impressionado. Acho porm que cometi 
um erro imaginando que um bom soldado daria um bom administrador. Eu
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me enganei, e peo que me perdoe. Alis, isso seria uma atitude crist,
no  mesmo? Dorina desviou o olhar.
- Acho que o senhor est caoando de mim, my lord...
- Absolutamente. Eu vim aqui para pedir desculpas e dizer que quero 
consertar as coisas.
- Ento terei muito prazer em ajud-lo, my lord! Apesar do que ela falou,
o conde percebeu por seu olhar que ela ainda no o aprovava, e 
continuava desconfiada.
No sabia como explicar essa sensao que ela lhe dava, a no ser por
achar que seus olhos eram muito reveladores. Alm do mais, apesar de ser
muito jovem e inexperiente, possua uma personalidade inegavelmente
forte, impossvel de se ignorar.
O conde tinha a estranha impresso de poder ler os pensamentos dela.
Sabia que, apesar de ter aceito a paz, ainda o reprovava, e isso s podia 
ser por causa de lady Maureen. Precisava trat-la com muito cuidado para 
redimir-se aos seus olhos, e atravs disso conquistar a confiana da 
aldeia.
- Sugiro que venha agora comigo em minha carruagem, miss Stanfield, e 
assim poderemos persuadir os dois que Richardson despediu a voltarem para 
Yarde o mais depressa possvel. Pelo menos assim terei uma governanta e 
um mordomo!
-  muito importante que eles voltem my lord, pois o senhor h de 
compreender que, mandando-os embora sem aviso prvio e sem nenhuma 
compensao aps tantos anos de fiel prestao de servio, despertou um 
sentimento desfavorvel entre seus outros empregados.
Ela fez uma pausa, respirou fundo, e continuou:
- E, alm do mais, Crter contratou os piores rapazes da aldeia para
lacaios, filhos de famlias que acabaram
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de se mudar para c e no foram ainda aceitas pelos que sempre
viveram em Little Sodbury.
Ela falava com tanta seriedade que o conde no pde evitar um comentrio.
- Acho extraordinrio, miss Stanfield, que voc, sendo to atraente, 
preocupe-se com meus problemas domsticos em vez de pensar em coisas mais 
interessantes. Afinal, Yarde no  um problema seu...
- Talvez o senhor no saiba que meu pai  um beneficiado seu, my lord, e 
portanto preocupa-nos muito saber que tipo de pessoa o senhor  e se
poderemos continuar contando com seu benefcio.
S ento o conde deu-se conta de que o pastor da parquia, em sua
propriedade, deveria ser indicado por ele, e que se quisesse poderia
despedi-lo como qualquer outro de seus empregados.
Mais uma vez entendeu que cometera um engano com relao a Dorina. Mas
disse apenas:
- Acho que teremos muito tempo para discutir esses assuntos e, sem
dvida, vou precisar de voc para me explicar vrias coisas que me
surpreendem no momento. Porm, uma coisa de cada vez, e  melhor
comearmos com meu mordomo e minha governanta.
Dorina ergueu a cabea e encaminhou-se para a porta, dizendo:
- Vou colocar meu chapu, my lord. No me demoro.
- Obrigado.
Quando ficou sozinho pensou, achando certa graa, que era a primeira vez 
em sua vida que uma mulher bonita lhe falava com tanta frieza e que o 
fitava com aquela expresso de desagrado no olhar.
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CAPTULO III

Dorina achou que mesmo o conde, insensvel e frio, como ainda o 
considerava, no podia deixar de notar quo desanimado e abatido estava o
velho Burrows quando chegaram  casa dele.
No telhado faltavam vrias telhas, as janelas estavam quebradas e h anos 
que no viam pintura.
Assim que o velho abriu a porta, seus olhos se iluminaram ao ver Dorina.
- Ah,  voc, miss Dorina! Entre, por favor, embora eu tenha vergonha de 
receb-la nesta choupana em estado deplorvel!
Viu ento que Dorina no estava sozinha, e deteve o olhar no conde, que
lhe estendeu a mo dizendo:
- Pedi a miss Stanfield que me trouxesse aqui para desculpar-me pelo modo 
como o senhor foi tratado. Quero que saiba que no foi por ordem minha.
O velho Burrows quase perdeu a fala, mas conseguiu dizer:
- Quer fazer o favor de entrar, my lord! Tome
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cuidado com as tbuas do assoalho, pois esto muito desniveladas.
Depois que entraram e constataram a pobreza e a falta de conforto, Dorina
achou que o conde deveria ter percebido como era humilhante para um homem
importante como tinha sido Burrows ser tratado daquela maneira.
Gostou do modo como o conde foi direto ao assunto, logo depois de sentar-
se:
- Burrows, eu vim aqui pedir-lhe para voltar imediatamente para Yarde e
restabelecer a ordem l. O senhor vai encontrar uma total confuso. Miss
Stanfield disse-me que os novos lacaios jamais deveriam ter sido
contratados. Conto com o senhor para substitu-los e fazer tudo voltar ao
que era no tempo de meu tio.
Burrows respirou fundo.
- Farei o melhor que puder, my lord.
- Obrigado - disse o conde. - Agora miss Stanfield e eu vamos falar com a 
senhora Meadows, e depois, assim que eu chegar em casa, mandarei uma 
carruagem para levar vocs dois de volta a Yarde, de onde nunca deveriam 
ter sado.
Dorina teve a impresso de que Burrows remoara dez anos ao ouvir isso. 
Ficou mais empertigado e firme como se, num passe de mgica, tivesse se 
transformado no homem que era antes da morte do velho conde.
Dorina e o conde saram e se encaminharam para a casa da senhora Meadows. 
Ele ia sorridente e ela calada.
- Ser que j fiz algo de errado novamente? falou ele. - Ou ser que no 
mereo sua aprovao?
- Mais uma vez acho que est caoando de mim, my lord - retrucou Dorina -
, mas, se quer saber, eu lhe sou grata por ter deixado Burrows to feliz.
O tom, porm, no era muito convincente, e o conde
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desconfiava que ela estava sendo fria e nada efusiva por estar chocada
com a atitude de lady Maureen. Era difcil aceitar que fosse essa a
razo, e ainda mais que Dorina o estivesse julgando um devasso, 
associando-o mentalmente ao hspede que tentara violentar a moa. 
Percorreram o caminho em silncio, at que chegaram a uma casa em 
condies piores do que a que tinham destinado a Burrows. Dorina esperava 
que o conde percebesse que a maioria das casas da aldeia precisava de uma 
boa reforma.
- Quando seu tio ficou doente - explicou ela, como se ele houvesse 
perguntado algo -, tudo por aqui ficou muito negligenciado, porque no 
havia quem desse ordens. Alm disso, com a guerra, tudo se tornou to 
caro que at em Yarde foi preciso fazer economia.
O conde no disse nada, apenas entregou as rdeas ao cocheiro, que 
descera de trs da carruagem, e ajudou Dorina a descer.
A senhora Meadows abriu a porta assim que bateram, e mais uma vez o conde 
viu um rosto se iluminar ao ver Dorina.
Depois, ao reparar quem a acompanhava, ficou tensa e fez uma reverncia 
ao conde, com certa frieza.
De novo, ele estendeu a mo e foi dizendo:
- Vim aqui, senhora Meadows, apresentar minhas desculpas pelo modo como 
foi despedida de Yarde, e suplico-lhe que volte imediatamente para pr em
ordem o que se descontrolou na sua ausncia.
Mas, em vez da expresso de deleite que Burrows mostrara com tal convite, 
a senhora Meadows simplesmente retrucou:
- Eu agradeo, my lord, mas, depois da maneira Pela qual fui insultada 
por seu administrador e despedida do lugar que considerei como meu lar 
por trinta anos, no estou pensando em voltar.
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O conde lanou um olhar consternado a Dorina e ela se adiantou, colocando 
a mo no brao da senhora Meadows.
- Tenho a impresso - disse ela, em voz baixa -, de que a senhora j 
ouviu falar das coisas terrveis que andaram acontecendo em Yarde e que 
teriam chocado o velho conde. Por favor, senhora Meadows, volte e ponha 
as coisas em ordem de novo. No pode continuar assim, e s a senhora pode 
fazer isso.
Por um momento a senhora Meadows no disse nada, e o conde achou que ela 
fosse insistir na recusa. Mas, fitando com olhos splices de Dorina, 
disse, com certa aspereza:
- Eu no pude acreditar, miss Dorina, quando me contaram o que aconteceu 
com Mary Bell. Sua me, que Deus a tenha, teria ficado horrorizada ao 
saber!
- Essas coisas no devem acontecer mais - disse Dorina.
A senhora Meadows olhou para o conde, e disse:
- Eu voltarei, my lord, mas s com uma condio: se acontecer novamente 
uma coisa dessas, eu levarei ao seu conhecimento e o senhor me apoiar, 
seja quem for o culpado.
Pelo modo como falava, tanto o conde quanto Dorina perceberam que a 
histria dos convidados e o incidente com Mary Bell tinham-na chocado 
bastante.
- A senhora tem minha palavra - retrucou o conde - de que o infeliz 
episdio de ontem  noite no se repetir. Creio, senhora Meadows, que os 
jovens de hoje no tm a mesma dignidade de antigamente.
Essa era a opinio da senhora Meadows tambm, e Dorina entendeu que o 
conde vencera.
- Espero, my lord, que os valores que sua famlia sempre defendeu, 
durante todos esses anos em que trabalhei l, continuem vigorando. - 
Depois virou-se para Dorina. - Espero tambm que nunca esquea
que sua me foi sempre um exemplo de delicadeza e Compreenso. Ela era s
bondade, e era exatamente o que uma Yarde deve ser.
Dorina sabia que a senhora Meadows estava falando indiretamente para o
conde e percebeu que, ao ouvir que sua me era uma Yarde, ele mostrou
surpresa.
Assim que saram da casa da senhora Meadows, depois de combinarem que a
carruagem iria busc-la, o conde perguntou-lhe:
- Por que no me disse que sua me era parente minha?
- Porque ela  de um ramo da famlia diferente do seu - respondeu Dorina.
- Mas no deixa de ser prima!
- , prima bem distante.
- J que temos o mesmo sangue,  seu dever de parentesco ajudar-me. O que
sugere que eu faa, agora?
Dorina achou que ele estava caoando outra vez. Depois, que estivesse 
falando srio e que aquela era uma oportunidade que no podia perder.
Quase chegou a pedir que ele aumentasse o pagamento de seu pai, mas no 
conseguiu.
Contudo, Rosabelle falou por ela.
Quando voltaram para a casa presbiterial o conde disse:
- Acho que agora seria melhor eu falar com seu Pai, se ele estiver em 
casa.
- Papai est no jardim - retrucou Dorina. - Por
que no deixa para v-lo outro dia? O senhor deve estar com pressa de ir
embora para providenciar a carruagem que vir buscar Burrows e a senhora
Meadows.
- Sinto que preciso v-lo agora - disse o conde com firmeza.
Era intil tentar discutir, portanto deixou o conde na sala de visitas e
foi  procura do pai.
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- O senhor espere um instante aqui, ento, que vou chamar papai.
- Preferia ir com voc - disse ele - mas, como j percebi que no gosta
de minha companhia, ficarei aqui.
Dorina saiu quase correndo, o que deixou o conde cem vontade de rir.
Ele achava uma experincia totalmente nova, no s ser olhado com 
desagrado por uma mulher bonita, como tambm ter de usar artimanhas para 
conseguir o que queria. Percebia que a vontade dela era mandlo embora 
dali e evitar qualquer aproximao. Sabia que estava chocada com o que 
acontecera, mas gostaria que perdoasse e esquecesse. Afinal, ela era a 
nica pessoa ali que poderia ajud-lo.
A porta abriu-se e ele pensou que veria Dorina e o pai, mas quem entrou 
foi Rosabelle. Ela se aproximou e era de fato uma menina muito bonita, 
com seus olhos azuis e cabelos loiros.
- Vi o senhor chegar, da janela do meu quarto, e resolvi descer para 
conversar.
-  muita gentileza sua. Sua irm no quis que eu fosse com ela at o 
jardim para encontrar seu pai.
- Acho que Dorina quer arrum-lo um pouco antes de encontrar o senhor, 
mas eu quero lhe agradecer por permitir que eu v ao parque e ao bosque.
- J me agradeceu e espero que v me visitar em Yarde. Tenho certeza de 
que voc e sua famlia sabem muito mais do que eu sobre a propriedade.
-  uma linda casa a sua! Ns sempre amos l para tomar lanche ou 
almoar com seu tio, antes de ele ficar doente. Sempre comamos coisas 
deliciosas!
- Espero que eu possa lhes oferecer o mesmo - sorriu o conde.
- No lanche havia bolos maravilhosos - prosseguiu Rosabelle -, e no 
almoo pratos que nunca
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podamos nos dar ao luxo de fazer em casa. - Suspirou e acrescentou: -
Ns s comemos coelho! Daqui a pouco eu vou virar coelho! O conde riu.
- Depois que mame morreu ns quase no temos o que comer.
O conde parou de rir e olhou para ela, atnito.
- No posso acreditar que seja verdade!
- Ento pergunte a Nanny. Ela vai lhe dizer como  terrvel termos que 
viver com to pouco e como ningum mais quer nos vender fiado.
Nesse momento Dorina chegou com o pai e mandou a irm ir terminar as 
lies de casa.
O pastor tinha penteado os cabelos e lavado as mos antes de ir receber a 
visita. O conde lembrou-se do que Rosabelle acabara de dizer e notou que 
a famlia toda era muito magra.
Estava pensando se deveria ir direto ao assunto do pagamento, quando o 
reverendo falou:
- No tenho muito para lhe oferecer, my lord, mas talvez aceite uma 
xcara de ch.
- Obrigado. Estou mesmo com sede depois do que sua filha e eu tivemos que 
falar para convencer a senhora Meadows e Burrows a voltarem para Yarde.
- O senhor vai readmitir os dois? - falou o pastor. - timo! Foi mesmo um
erro eles terem sido despedidos.
Dorina foi providenciar o ch e o conde falou:
- Preciso de sua ajuda, reverendo, e da de sua famlia tambm. Como 
precisei demorar um ano para Vir para c, nomeei um administrador que,
infelizmente,  piorou as coisas. Percebo agora que foi um erro.
- Est se referindo a Richardson? Concordo. Ele despertou a ira da aldeia 
toda, e se o senhor no tivesse
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falado nisso eu acharia de meu dever p-lo a par do que aconteceu em sua
ausncia.
- J fiquei sabendo de tudo e j despedi Richardson.
- O senhor o despediu? Mas que excelente notcia!
Ento o pastor contou ao conde como estava preocupado com o aumento dos 
aluguis dos fazendeiros, e como uma famlia, que cultivava as terras da 
propriedade j h duas geraes, tinha recebido notificao de despejo 
para dali a um ms.
O conde tomou nota do nome, dizendo:
- O senhor est dizendo exatamente o que eu queria saber, reverendo. Tudo 
isso vai ser retificado, e s o senhor pode me ajudar e me aconselhar. 
Parece que sua esposa era minha parente.
- Sim, ela era uma Yarde, e, embora a famlia dela no quisesse que ela 
se casasse comigo, ns fomos muito felizes.
Depois disso a conversa fluiu, e foi fcil para o conde perguntar se
algum mais vivia de seu paga mento.
Ficou sabendo que havia cinco presbitrios e que dois estavam sem pastor. 
O presbtero estava  espera da chegada do conde para que ele 
entrevistasse os candidatos.
- H algo mais que quero saber - disse o conde -, pois creio que, como 
tudo o mais, depois da guerra suas despesas aumentaram enquanto que seu 
ganho ficou esttico.
- Isso  verdade - concordou o pastor.
com tato, o conde fez vrias perguntas e ficou sabendo que o que o pastor
ganhava mal dava para manter a casa presbiterial e a famlia.
- Quando minha esposa era viva, ela recebia una renda mensal do que o pai
lhe deixara em testamento,
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mas como ele no gostava de mim e tinha raiva por que, apesar de ser
to bonita, ela no escolhera um marido melhor, a renda desse capital s 
dever ser paga aos meus filhos depois de atingirem vinte e um anos. No 
posso retirar nem um centavo dessa renda, mesmo que seja para benefcio 
das crianas.
- Acho que sua filha Dorina puxou  me comentou o conde.
- Isso  verdade. Minha mulher era muito bonita e Dorina  quase uma 
rplica dela. Rosabelle j herdou os olhos azuis e cabelos loiros de 
minha famlia, como deve ter notado. Meus ancestrais tm sangue viking.
O conde interessou-se, e ia perguntar mais se Rosabelle no tivesse 
entrado para avisar que o ch estava pronto.
Foram para a sala de jantar e Peter juntou-se a eles, ansioso para falar 
sobre os cavalos do conde.
A mesa estava posta com asseio e capricho, mas havia realmente muito 
pouco. Alguns sanduches, que Dorina fizera s pressas, uma sobra de bolo 
caseiro, um pouco de manteiga e um pequeno pote com gelia de ameixa.
Dorina no disse nada, mas o conde percebeu que Rosabelle fez careta ao 
pegar o pote de gelia que Peter lhe entregou, como se estivesse enjoada 
pela falta de variao.
O pastor, porm, no percebeu nada. Comeu um sanduche, distrado, 
falando ao conde sobre os fazendeiros da regio e comentou que havia 
pouco trabalho Para os jovens da aldeia.
- No posso deixar de achar, my lord, que se o senhor resolvesse mandar 
aparar algumas rvores do bosque ou reabrisse algumas das antigas 
cascalheiras, que esto fechadas h dez anos, isso daria trabalho aos
jovens, eles teriam algo melhor para fazer do que
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ficar rondando o Green Dragon para tomarem conta dos cavalos de quem pra
l.
- Vou pensar nisso - respondeu o conde. Acha que  uma boa ideia, miss
Stanfield?
Dirigiu-se a Dorina, que estava  cabeceira da mesa, servindo o ch e 
mantendo-se fora da conversa.
- Acho que  uma excelente ideia, my lord, se est realmente pensando em 
fazer alguma coisa aqui. Porm, acho que suas festas em Londres no lhe 
deixaro tempo para isso e, nesse caso, creio que seria um erro despertar 
esperanas nas pessoas para deix-las decepcionadas depois.
O conde percebeu a hostilidade, e retrucou:
- Entendo o que est dizendo, miss Stanfield, e acho que seria uma boa 
ideia voc e seu pai me mostrarem num mapa essas regies da propriedade 
que precisam de reparos e a localizao das pedreiras. Como sabem, sou um 
forasteiro aqui em Yarde e ainda no conheo bem tudo.
Dorina ficou calada e ele voltou a falar, depois de instantes:
- Outra coisa em que devemos pensar o quanto antes  quem poderemos
indicar para administrador, no lugar de Richardson. Pretendo participar
ativmente de tudo o que acontecer, mas tambm precisarei de um
administrador para executar minhas ordens.
- Gostaria de ter idade para isso! - disse Peter. - Assim poderia montar 
seus cavalos!
- Podemos discutir sobre isso - retrucou o conde.
- Mas voc vai ter que esperar alguns anos e, enquanto isso, vai estudar 
bastante.
Percebeu que Peter olhava-o com ansiedade e expectativa, e ento 
acrescentou:
- Quer ir l em casa amanh? Poder me mostrar as cocheiras, e quem sabe 
descobrimos um cavalo que
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voc possa montar quando no estiver ocupado com as lies. Peter deu um 
grito de entusiasmo e o pastor disse:
-  muita gentileza sua, my lord, mas no posso permitir que meus filhos 
incomodem o senhor.
- Eu lhe asseguro que no incomodaro - retrucou o conde.
- Se Peter vai  Casa Grande amanh, posso ir tambm? - pediu Rosabelle.
- Voc deve pedir  sua irm - retrucou o conde -. mas acho que se pode
dar um jeito.
- Ningum vai a lugar algum sem ter terminado as lies - disse Dorina,
severa.
Imediatamente Rosabelle e Peter saram da sala e subiram para seus 
quartos.
Em seguida, o pastor foi at o escritrio procurar um velho mapa da 
propriedade para mostrar ao conde o lugar das pedreiras.
com isso, Dorina e o conde ficaram a ss na sala. Ele se ergueu e ela 
tambm.
- Quero falar com o senhor, my lord.
- Sou todo ouvidos.
- Sei que est tentando ser gentil e reparar o que ocorreu na sua 
ausncia, mas, por favor, no me interprete mal se lhe peo para no 
incentivar Rosabelle a ir  sua casa.
Falou sem olhar para ele e enrubesceu. Por instantes fez-se silncio, at 
que o conde falou: - Sei exatamente em que est pensando, miss Stanfield. 
Talvez agora, que descobri sermos parentes, Possa cham-la de Dorina... O 
que lhe digo, porm,  que no h a menor possibilidade de Rosabelle 
encontrar aquele tipo de homem que por acaso ficou hospedado em minha
casa alguns dias. E eu lhe garanto que ele jamais ser convidado
novamente!
- Mas... h outros homens...
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- Claro, mas esses sero meus amigos e posso lhe garantir que no 
representam perigo para algum to jovem quanto Rosabelle.
Esperava que Dorina acreditasse em sua sinceridade, mas para sua surpresa 
ela falou:
- Sinto muito, mas ainda acho que seria um erro deixar Rosabelle 
envolver-se com seus... amigos...
Hesitou ao dizer a ltima palavra, e o conde achou que ela estava se 
referindo a lady Maureen. Depois seu instinto lhe disse que era algo mais 
do que isso, e, aps uns instantes, falou:
- Que tal, Dorina, se voc fosse mais clara? O que est realmente 
querendo dizer? Quem voc teme que sua irm encontre? Por acaso, j que 
pensa to mal de mim, teme que eu possa magoar a menina?
Sabia que estava sendo de uma franqueza brutal, porm queria forar 
Dorina a dizer a verdade.
Fez-se um breve silncio, em que ela o fitou, e em seguida desviou o 
olhar.
- Diga-me - insistiu ele -, em que est pensando?
Devagar, como se cada palavra lhe fosse arrancada, disse com relutncia:
- No quero que Rosabelle encontre... ha... seu primo Jarvis...
O conde ficou atnito. Isso era algo que no esperava, e levou alguns 
segundos para falar:
- Posso lhe perguntar por qu? Deve ter bons motivos para o que acabou de 
afirmar.
- No gostaria de responder, my lord. E, depois, que diferena isso faz 
para o senhor? Meu pai e eu estamos dispostos a ajud-lo no momento, mas 
assim que o senhor estiver a par de tudo ser capaz de administrar muito 
bem sem nossa ajuda.
- Talvez tenha razo. Mas, por enquanto, estamos envolvidos um com o 
outro, e acho que no tem
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direito de levantar calnias contra Jarvis Yarde, que  tambm seu primo, 
se no pode fundamentar o que disse.
- No vejo por que devo fazer isso! - disse Dorina, rspida. - S estou 
lhe pedindo que me ajude a manter Rosabelle longe de sua casa e, 
principalmente, dos que a frequentam.
- E se eu me recusar?
Dorina respirou fundo, depois olhou-o com raiva.
- Pelo amor de Deus! - disse ele. - Por que estamos discutindo? E a 
respeito de qu, afinal? J pedi desculpas pelo erro que cometi ao 
contratar um mau administrador e pelo que aconteceu durante a festa. 
Aquelas pessoas no eram meus amigos, apenas conhecidos de Londres.
- O que est querendo dizer  que eram amigos de Jarvis!
- Isso  verdade. Ele me recebeu efusivamente quando cheguei na semana 
passada e, na verdade, foi o nico membro da famlia a agir assim.
- Tenho certeza de que isso aconteceu porque ningum esperava sua 
chegada, j que o senhor no avisou. H dezenas de Yarde que ficariam 
felizes em oferecer-lhe hospitalidade, e contentes que o senhor tivesse 
finalmente chegado para assumir seus deveres como chefe da famlia. Mas 
parece que o primo Jarvis queria tudo s para si.
O conde olhoura, analisando-a.
- O que foi que Jarvis fez para aborrec-la? Ele fez algum avano?
- Claro que no! Alis, duvido que ele saiba da minha existncia. Mas
acho que o senhor deve ser melhor aconselhado na escolha de amigos, em
sua nova Posio, my lord... - Ficou hesitante, depois acrescentou
depressa: - Isso  tudo que tenho para dizer! Sinto muito, mas no posso 
falar mais.
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Encaminhou-se para a porta, e j ia abri-la se o conde no a tivesse 
impedido de faz-lo.
- No espera que eu me satisfaa com essa resposta. Seja sensata, Dorina! 
Estou tentando me situar num labirinto e, em vez de me ajudar, voc est 
tornando as coisas muito mais difceis.
- Sinto muito que pense assim, mas no tenho nada a acrescentar ao que j
disse.
- Porm est me pedindo para manter Rosabelle e Peter longe de Yarde! 
Pois bem, voc no foi convincente quanto aos motivos e, enquanto no me 
explicar direito, ignorarei seu pedido, simplesmente porque  insensato.
- No  insensato! Independente de qualquer outra coisa, o senhor deve 
perceber que leva uma vida bem diferente da nossa, e seria um erro deixar 
que as crianas se acostumem e aprendam a gostar de coisas caras que 
jamais podero ter.
- Disso voc no pode ter certeza. Alm do mais, acabei de pedir a ajuda 
de seu pai no s para conhecer os presbitrios para os quais devo 
indicar pastores, mas tambm para melhorar a situao econmica de todos 
eles, que sem dvida est desatualizada.
Dorina arregalou os olhos.
- Est tentando me dizer que pretende aumentar os subsdios deles?
- No caso de seu pai, pretendo fazer isso imediatamente.
Por instantes Dorina ficou contemplando-o, depois falou:
- Se est mesmo pretendendo ajudar papai financeiramente, s posso lhe 
agradecer do fundo do corao!
Seus olhos encheram-se de lgrimas e ela virou o rosto para escond-las.
O conde no disse nada, apenas abriu a porta e saiu
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para o hall, no momento em que o pastor vinha vindo Com um mapa nas
mos.
Dez minutos mais tarde o conde estava voltando para Yarde.
No caminho ia pensando na estranha tarde que passara com Dorina, e o
quanto aprendeu sobre sua nova propriedade e seus empregados.
Parecia-lhe incrvel que no houvesse ningum para orient-lo e
aconselh-lo quanto ao que devia fazer em sua nova posio, a no ser uma
jovem que o censurava por tudo o que acontecera antes de sua chegada.
Harry esperava-o na Casa Grande e no pde deixar de perguntar:
- Por que demorou tanto? Voc disse que voltaria logo!
- Tive muitos problemas para resolver, Harry. Coisas que jamais imaginei
ao herdar este condado!
- Ento conte-me. Espero que no sejam insolucionveis.
- No estou bem certo. Mas, primeiro, quero que me conte tudo o que sabe
a respeito de Jarvis Yarde.
- Ele  seu primo!
- Sei disso! - retrucou o conde, impaciente. - Estou falando srio,
Harry, portanto conte-me a verdade.
- Como voc sabe, estive no exterior por algum tempo, por isso o que sei
sobre seu primo  mais de ouvir falar por amigos da White que gostam de
mexericar...
- O que lhe disseram? Harry pareceu constrangido.
- No quero causar problemas...
- S vai causar problemas se no for franco coligo, como sempre foi at
agora.
- Est bem - suspirou Harry -, se quer saber
a verdade, ele  considerado uma pessoa vulgar e maleducada. Ficou muito
entusiasmado quando soube que voc estava voltando de Paris para reabrir
a Manso Yarde na Berkeley Square. Como deve lembrar, ele foi sua
primeira visita e quase se pode dizer que ficou esperando sua chegada,
sentado  sua porta.
- Ele me pareceu sincero - disse o conde.
- Claro...
- Por que claro? O que quer dizer com isso?
- Voc  o cabea da famlia, meu caro, e para todos os efeitos um homem
rico. Jarvis, pelo que sei, est em dificuldades financeiras e comeou a
fazer emprstimos a torto e a direito antes mesmo de seu tio morrer, na
esperana de que voc tambm morresse na guerra. Quando houve o cessar-
fogo, porm, ele no ficou nada contente.
- No sei de que diabos est falando! - exclamou o conde. - De que
maneira Jarvis se beneficiaria com minha morte?
- Ou voc est sendo obtuso, ou no se deu ao trabalho de indagar, o que
 mais provvel.
- Estou ouvindo. Continue!
- Se tivesse consultado a rvore genealgica de sua famlia, teria
percebido que Jarvis  seu herdeiro presuntivo.
O conde se empertigou na cadeira.
- No acredito!
-  verdade! Assim como voc herdou por linha indireta, aps a morte dos
dois herdeiros diretos do condado, Jarvis Yarde se tornaria o oitavo
conde de Yardcombe com a sua morte. A menos que voc tenha um filho,
coisa que aconselho providenciar logo.
- E voc diz que ele est fazendo emprstimos contando com isso?
- Assim que seu primo Charles morreu, Jarvis procurou um agiota e obteve
um emprstimo no muito
62
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grande, mas o suficiente para custear suas extravagncias com mulheres
durante alguns meses.
- Por que no me contou logo?
- Pelo modo como ele est bajulando voc desde que voltou de Paris,
aposto como mais cedo ou mais tarde ele vai lhe pedir uma boa quantia de
dinheiro.
- Pois vai ficar decepcionado! No pretendo pagar dvidas de parentes
esbanjadores. Primeiro preciso calcular quanto vou gastar com o condado e
as pessoas que emprego.
- Uma afirmao bastante louvvel! - disse Harry em tom zombeteiro. - Mas
 bom eu preveni-lo, Oscar, que Jarvis, pelo que sei,  como um polvo.
Uma vez que entrou em sua vida, vai envolv-lo e esmag-lo com seus
tentculos at que voc ache impossvel libertar-se dele.
- Nunca ouvi tanta besteira - riu o conde. No acredito numa s palavra!
Achou que o amigo exagerava.
Por outro lado lembrou-se do modo como Dorina falou de Jarvis, do horror
que demonstrou, embora no tivesse falado nada claramente.
At

 CAPITULO IV

Depois que o conde saiu, Dorina foi para a sala e sentou-se, olhando para
o retrato da me sobre o console da lareira.
Tinha sido pintado por um artista local logo aps o casamento e, embora o
pintor no fosse muito habilidoso, tinha conseguido captar a alegria, a
felicidade e a doura que emanavam da senhora Stanfield, contagiando os
que a rodeavam.
Dorina ergueu os olhos para o quadro e disse bem baixinho:
- Ser que eu devia ter contado, mame? Achei que ele no me acreditaria
e acharia que eu estava inventando.
Dorina ficou pensativa, lembrando das coisas estranhas que tinham
acontecido aps o enterro do velho conde.
Grande parte dos Yarde tinha comparecido, e ficara estabelecido que todos
almoariam na Casa Grande depois do enterro.
A maioria viera de muito longe e, portanto, logo depois
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de terem comido, bebido, retornaram a suas carruagens e partiram.
Dorina e o pai fizeram as vezes de anfitries, por serem os nicos Yarde
que moravam em Little Sodbury. Seria o papel de sua me se ainda
estivesse viva, j que os dois herdeiros diretos estavam mortos e Oscar
Yarde, o novo conde, estava na Frana.
O velho conde morrera cinco meses depois de Waterloo, quando as
hostilidades j haviam cessado.
Embora houvesse muita alegria com a paz, havia tambm uma grande
depresso na Inglaterra, no s pelos homens que perderam a vida lutando,
mas tambm pelas dificuldades financeiras que estavam atingindo a todos,
fazendeiros ou no.
Dorina sabia que o velho conde quisera morrer. Estava doente demais para
enfrentar os novos problemas em seu condado e, depois de ter perdido os
dois filhos, que significavam tudo para ele, no tinha mais desejo de
viver.
Ainda na igreja pusera-se a imaginar como seria o novo conde, e se teria
capacidade para substituir o tio, sendo to amado e respeitado quanto
teria sido William, se fosse vivo.
Ento, de repente, sem saber por qu, notou a presena do primo Jarvis.
Desde crianas que no gostava dele. Depois de crescidos, ele quase
sempre a tratava com rudeza quando se encontravam. Dava a impresso de
que torcia o nariz para seu pai por ser um humilde Pastor e considerava-
os sem importncia por serem pobres e no terem posio social de
destaque. Olhou para ele no banco da frente e teve a impresso de que
Jarvis zombava do servio religioso e mantinha uma atitude hostil. Dorina
repetia para si que era ridculo sentir-se Daquela maneira, e que no era
uma atitude crist. Contudo sabia que raramente se enganava quando tinha
essas intuies sobre algum.
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Depois que todos se foram Dorina subiu para buscar o casaco no quarto, 
onde haviam deixado mantos e agasalhos. Pegou-o e estava prestes a sair 
quando ouviu um rudo estranho num quarto pegado. Ficou imaginando o que 
seria, j que todos tinham ido embora logo aps a refeio, e os 
empregados deviam estar na cozinha comendo o que sobrara do almoo.
Ps-se  escuta no corredor e descobriu que o rudo vinha do quarto em 
que o conde morrera.
Encaminhou-se para l e ouviu distintamente uma palavra ser repetida 
vrias vezes:
- Nisroch... Nisroch!
Ficou arrepiada, pois sabia que Nisroch era o deus do dio. E, ento, 
ouviu mais dois nomes:
- Moloch... Andramalech!
Sabia que o primeiro era o terrvel deus que devorava crianas, e que 
Andramalech era o deus do assassinato.
Mal podia crer no que estava ouvindo, parecia estar num pesadelo.
A essa altura j estava diante do quarto do velho conde, e viu que a 
porta estava entreaberta. As vozes vinham l de dentro.
Ficou apavorada, de repente, jamais sentira medo naquela casa, que era 
como seu lar, mas naquele momento um medo estranho invadiu-a, e comeou a 
tremer.
Ento uma voz grave gritou com clareza:
- Beelzebud, Andramalech, Lcifer, vinde a mim! Senhor das trevas, eu 
imploro, Satans, sou vosso servo; vinde! Vinde! Honrai-me com vossa 
presena!
Dorina prendeu a respirao.
Tinha reconhecido a voz, e, pela fresta da porta, que nem ousou tocar, 
pde ver, embora as cortinas estivessem fechadas e o quarto na penumbra, 
que seu primo
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Jarvis estava parado aos ps da enorme cama de dossel onde vrios Yarde 
haviam nascido e morrido.
Ele dizia, ento, num tom confidencial, como se estivesse falando com uma 
pessoa.
- Destrua-o, Lcifer! Mate-o como matou William e Charles! Impea-o de 
voltar  Inglaterra, e eu juro que serei seu servo para sempre e 
retribuirei o que voc fez por mim. Oua-me, Lcifer! Eu lhe ofertarei o 
sacrifcio que me pedir, um recm-nascido ou uma virgem pura e inocente. 
Tudo isso ser seu se me der poder e Oscar morrer!
A voz de Jarvis ficou ecoando no ar, depois ele abriu os braos e caiu de 
joelhos, repetindo:
- Satans, sou seu servo! Fao o que lhe peo e eu jamais o 
decepcionarei!
Como se temesse que o Satans aparecesse para Jarvis, atendendo seu 
chamado, Dorina virou-se e saiu correndo pelo corredor, escada abaixo e 
porta afora.
Queria fugir dali, ir o mais longe possvel, afastar-se de algo to mau, 
to obsceno que nem parecia real.
Devia estar tendo um pesadelo! Mas por que no acordava, ento?
Foi s quando chegou  tranquila casa do presbitrio que pde respirar 
normalmente e sem medo.
Dirigiu-se ao seu quarto e tentou ordenar os pensamentos, querendo 
convencer-se de que aquilo que vira e ouvira era apenas fruto de sua 
imaginao.
Porm, lembrava o tom desvairado da voz de Jarvis, que ficara gravado em 
seus ouvidos, clamando por Satans e evocando os nomes do mal.
Ficou muito tempo ali, deitada, at que ouviu Nanny cham-la para ajudar 
a preparar o jantar.
Rosabelle e Peter no tinham ido ao enterro, e o pai mandara-os passar o 
dia com um fazendeiro vizinho.
Dorina achou melhor assim, pois Rosabelle sentira-se
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to mal no enterro da me que a repetio da cena, no mesmo local, s
iria reavivar a dor da menina.
Dorina desceu, pensando que, como estaria a ss com o pai, talvez lhe
contasse o que ouvira. Mas depois acabou achando que seria melhor tentar
esquecer aquela cena horrorosa que presenciara sem querer.
Tinha certeza de que, se o pai soubesse que o primo Jarvis estava
envolvido com Magia Negra, se acharia no dever de adverti-lo. E nesse
caso Jarvis no s seria rude com ele, como se vingaria dela.
Sentiu vergonha de ter medo dele, mas, por outro lado, havia algo de
ameaador no modo como invocara Satans. Temia que, se ele ficasse com
raiva, fizesse algum feitio. Pensou em Deus, pediu proteo, e resolveu
que no diria nada a ningum. Tentaria esquecer, embora fosse muito
difcil.
Agora temia por Rosabelle e, por causa disso, fizera, inadvertidamente, o
conde pensar que ela sabia algum segredo a respeito de Jarvis e que no
queria contar.
Tinha a impresso de que ele ficara to curioso que insistiria em tentar
arrancar-lhe o que no pretendia contar.
No dia seguinte ainda estava pensando se devia contar ao conde, ou no,
que Jarvis, longe de ser amigo, estava mais era torcendo por sua morte
para que se tornasse o oitavo conde de Yardcombe.
Por estranho que parecesse, o conde no apareceu no presbitrio no dia
seguinte. As crianas no paravam de falar nele.
Peter foi at a cocheira e voltou cheio de entusias mo pelos novos
cavalos que poderia montar quando qui sesse, conforme lhe dissera
Hawkins.
Dorina ouviu meio distrada e Rosabelle, que s for at o parque com
Rover, disse, com inveja:
- S voc est se divertindo, Peter! Amanh vou com voc  cocheira!
No tem trabalho para menina, l! - disse ele.
Mas acho que Hawkins deixa voc montar um dos cavalos.
- Voc deve pedir ao conde primeiro - interferiu
Dorina.
- Se quiser, eu peo - retrucou Rosabelle. - Mas j sei que ele dir
"sim". No sei por qu, vive tentando impedir que o conde seja gentil
conosco, Dorina!
Sem dvida, ele estava tentando ser gentil, pois ao meio-dia chegou uma
carroa da Casa Grande contendo alimentos, frutas e seis garrafas de
excelente vinho para seu pai.
- No pretendo aceitar a caridade dele! - disse Dorina a Nanny. - Mande
isso tudo de volta.
- Caridade! - exclamou Nanny. - No  nada disso, e voc sabe muito bem,
miss Dorina!
-  claro que  caridade, pelo menos devemos ter a dignidade de
reconhecer.
Nanny colocou a mo sobre os alimentos, como se assim impedisse que ela
os tirasse da mesa, e disse:
- Leia a Bblia, miss Dorina, vai ver que as pessoas sempre levam
oferendas para os sacerdotes. No h nada de mal no conde mandar
presentes para o Pastor, e voc devia agradecer por ele ter a
generosidade de pensar em ns. Nem mesmo o velho conde pensou nisso!
E era verdade mesmo. Alm do mais, Dorina comeou a fraquejar ao pensar
quanto o pai apreciaria
O vinho. Nanny prosseguiu:
- Eu no aguento mais ver essas crianas passando fome, magrinhas. E
comigo mesma, s vezes, a fome e tanta, que comeria um boi!
Dorina no pde deixar de rir.
- Est bem, Nanny. Como o conde disse que vai Aumentar o subsdio de
papai, acho que podemos considerar isso um adiantamento.
Os olhos de Nanny brilharam.
- Aumentar os subsdios? Ora, mas isso  um bon comeo! Digam o que
disserem sobre os problemas dste ano que passou, mas  bvio que o conde
est tentando endireitar as coisas. E ns s devemos ajud-lo!
Dorina foi forada a admitir que a atitude do conde era, sem dvida, um
ponto a seu favor.
Por outro lado, no podia perdo-lo completamente pela festa que causara
tanto aborrecimento.
Mesmo admitindo que o homem que tentara violar Mary Bell era amigo s
de Jarvis, tinha visto muito bem o comportamento de lady Maureen.
Sabia que aquela atitude teria chocado sua me e que no era prprio de
uma mulher honesta, por mais que os costumes tivessem mudado no crculo
social que girava em torno do Prncipe Regente em Londres.
Se aquele era o tipo de mulher que o conde gostava ento Rosabelle no
devia associar-se no s aos am gos e ao primo Jarvis, mas, tambm,
quanto menos visse o conde melhor.
Mais uma vez se lembrou do comportamento sinistro do primo Jarvis, e
ficou pensando se no haveria um modo de insinuar ao conde que ele era
perigoso, sem ter que revelar detalhes.
Depois censurou-se. Que besteira acreditar em supersties! Imagine se
Jarvis poderia prejudicar o conde com Magia Negra! Seu pai certamente lhe
diria que essa crena era coisa de gente simples e primitiva, ou ento de
pessoas mentalmente desequilibradas.
Sabia muito bem que no interior ainda existiam mulheres de modos
estranhos, conhecidas como feiticeiras, que podiam paralisar o brao de
um homem con uma praga, fazer a manteiga ficar ranosa no momento em que
estava sendo batida por algum, ou, pior, podia  impedir que uma vaca
premiada parisse.
Ser que tinham mesmo esses poderes? Por que alguns
jovens da aldeia procuravam as feiticeiras para resolver casos de amor? Ou
para se vingarem de rivais que tivessem roubado seus homens?
- A maldade s faz mal s pessoas que a praticam.
-  dissera-lhe a me, certa vez, quando comentavam o caso de uma praga
rogada.
por certo que Jarvis no poderia fazer algum mal a um homem como seu pai
usando Magia Negra, pensava Dorina. Mas se o conde no fosse um homem
bom, ento talvez fosse atingido e morresse. E, nesse caso, se no o
avisasse, ela jamais se perdoaria.
Contudo no podia nem pensar em procurar o conde e contar-lhe o que  
ouvira Jarvis dizer.
- Ele fez um pacto com o demnio - ouvia-se dizendo, depois veria 
incredulidade no olhar do conde e zombaria por ach-la to infantil e 
tola a ponto de acreditar nessas coisas.
Era isso que aconteceria, ele riria dela, achando-a uma caipira boba, sem 
a menor sofisticao.
Decidiu, portanto, que no poderia contar a ele.
Acordou mais tarde na manh seguinte e desceu depressa para ajudar Nanny 
com o caf das crianas, antes das aulas.
- Assim que miss Soames terminar a aula, hoje anunciou Rosabelle, em tom
de desafio -, vou direto Para a cocheira com Peter!
Antes que Dorina abrisse a boca para protestar, a Menina prosseguiu:
- Eu j sei pr que voc no quer que eu v l! Tem cimes porque o conde 
no a convidou para montar os cavalos dele, nem a convidou tambm para ir
a Casa Grande, mesmo depois de voc ajud-lo com os empregados!
- No  verdade. - comeou Dorina, mas, antes que terminasse a frase, 
Rosabelle atirou-se em seus braos, chorando.
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- Eu no falei por mal! No quis magoar voc. Tenho certeza de que o conde 
adoraria que voc cavalgasse conosco, e ns tambm acharamos 
maravilhoso!
Dorina abraou a irm e a menina prosseguiu:
- Desculpe! Desculpe! Voc  to boa para mim e  s vezes eu sou m, muito
m...
- Est tudo bem, irmzinha, eu no estou zangada. Pode ir  cocheira com
Peter, mas apenas prometa-me uma coisa...
- O qu? - perguntou Rosabelle, apreensiva.
- Se o primo Jarvis estiver l, voc volta imedia tamente!
Rosabelle mostrou-se surpresa, mas logo disse:
- Eu no me importo de prometer isso! No gosto do primo Jarvis! Tem 
alguma coisa nele que me faz ficar arrepiada de medo!
- Ento, se o encontrar l, volte para casa e deixe para ir outro dia em 
que ele no esteja.
Os dois irmos correram para suas aulas e o pastor lembrou-se que 
precisava visitar uma mulher doente na aldeia, depois preparar um 
batizado, antes de poder cuidar de seus cactos.
Saiu apressado, e Dorina comeava a tirar a mesa do caf quando bateram  
porta da frente.
Ela foi abrir e, para sua surpresa, deparou com um belo jovem parado l 
fora, segurando as rdeas de seu cavalo.
- Creio que a senhorita deve ser miss Stanfield - disse ele. - Estou 
hospedado na Casa Grande e meu nome  Harry Harrington. Preciso de sua 
ajuda.
- Claro! - respondeu Dorina. - Ser que se incomoda de levar seu cavalo 
at a cocheira? No temos ningum aqui para fazer isso.
Ela o conduziu at l e, depois de mostrar-lhe uma baia vazia, falou:
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Agora podemos voltar para casa.
Enquanto o levava de volta, ia pensando o que o teria levado a procur-
la, e achou estranho que o conde mandasse o amigo em vez de ir 
pessoalmente.
Assim que entraram na sala, Harry disse:
- Fui at a aldeia para procurar o mdico e fiquei sabendo que ele est 
fora.
-  - respondeu Dorina. - A me dele morreu e ele s voltar daqui a uns 
trs dias.
- Foi o que me disse a governanta dele, e eu pensei, miss Stanfield, que 
voc ou seu pai pudessem recomendar outro.
- Tem algum doente na Casa Grande? Harry fez que sim.
-  seu primo Oscar. O valete foi me chamar logo cedo, dizendo que ele 
passou muito mal a noite toda. Eu fui v-lo e fiquei impressionado. 
Parece que vai entrar em coma!
- Deve ter sido alguma coisa que ele comeu.
- Foi o que pensei, mas comemos as mesmas coisas no jantar, e eu estou 
perfeitamente bem.
- Deve ter comido alguma coisa diferente - insistiu Dorina. - O que ele 
comeu ontem? Talvez alguma fruta do quintal, ou qualquer outra coisa!
- No sei. No consigo imaginar o que tenha sido
- respondeu Harry.
- Por acaso algum ofereceu algo para ele?
- A nica pessoa que o visitou foi Jarvis Yarde! Dorina ficou tensa.
- O primo Jarvis? Ele est com voc?
- Chegou inesperadamente de Londres pouco antes do almoo, e estava muito 
satisfeito porque levou Apenas duas horas e meia na viagem, quando a 
mdia e de trs horas!
Dorina balanou a cabea:
73
- Por que o primo Jarvis chegou assim inesperadamente?
- S para ser agradvel a Oscar, creio eu - disse Harry, com um leve tom de
desagrado que no escapou a Dorina.
- Acha que ele possa ter dado algo de comer  ao conde que voc no saiba? -
perguntou ela.
Harry demorou um pouco para responder.
- Quando vi Oscar esta manh, estava to fraco que era difcil fazer
muitas perguntas. Achei que precisava de um mdico, urgente. Mas agora 
estou lembrando... murmurou alguma coisa a respeito do vinho, mas a voz
estava to  baixa e ele quase inconsciente, por isso no insisti para
 que repetisse.
Dorina olhou-o assustada e falou:
- Acho que devo ir imediatamente para a Casa Grande! Vou levar uma erva 
medicinal que mame usava. Ela costumava dar aos doentes, e todos diziam 
que era melhor do que qualquer remdio,
- tima ideia! Enquanto voc se prepara vou voltar  Casa Grande o mais 
rpido que puder para buscar a carruagem. Eu j deveria ter vindo nela,
mas achei mais rpido vir a cavalo.
- Assim terei tempo de colher algumas ervas facas que a senhora Meadows
poder preparar. Ela conhece as receitas de mame.
-  melhor eu ir logo, ento - disse Harry. Sem dizer mais nada, saiu da
sala, atravessou o hall
e correu para o estbulo.
Dorina levou a mo  testa, tentando ordenar os pensamentos.
Se Jarvis tivesse atingido o conde de algum modo oculto e misterioso,
talvez fosse tarde demais para ajud-lo. Arrependeu-se de no ter tido 
coragem e contaf a ele o que sabia.
Depois achou que talvez estivesse fantasiando. Podia
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haver uma explicao simples e racional para o estado do conde. Quem
sabe estava com uma daquelas febres que s vezes atingia os moradores da 
aldeia, sem razo aparente...
Imaginou que, ao chegar l, j o encontraria melhor, por outro lado, 
porm, lembrou-se novamente, com toda nitidez, de Jarvis fazendo o pacto 
com Lcifer e, apesar de tudo o que lhe dizia o bom senso, comeou a 
tremer.
Harry voltou com surpreendente rapidez, e dessa vez trouxe um cocheiro.
Ajudou Dorina a levar a cesta com pequenos frascos contendo essncias de 
ervas e vrias outras folhas colhidas no quintal, onde a me as havia 
plantado e seu pai continuara cuidando.
s vezes Dorina achava que devia ser muito doloroso para ele fazer algo 
que lhe trazia a lembrana vvida da mulher. Porm, ele cuidava das 
plantas com todo amor, e por isso elas cresciam viosas, como sempre sua 
me acreditara.
- Quer dizer, mame - perguntara Dorina, certa vez -, que se a gente diz 
para uma planta que a ama, ela cresce mais forte e mais rpido?
- Sem dvida, filhinha. Isso  verdade, sim respondera a senhora 
Stanfield. - E o mesmo se aplica s pessoas. O amor opera milagres, 
enquanto que o dio s pode causar danos irreparveis.
Dorina lembrou-se da me dizendo isso, e achou que talvez fosse apenas o 
dio de Jarvis que fizera mal ao conde e no alguma Magia Negra.
Mas, ao subir a escada que conduzia aos quartos na Casa Grande, ia 
bastante apreensiva com o que iria encontrar.
Desde aquela tarde do enterro em que surpreendera Jarvis no quarto do 
velho conde, no estivera mais l.
Quando Harry abriu a porta e eles entraram, ela
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imaginou que sentiria o mesmo medo daquele dia, e que sentiria algo de 
sinistro pairando no ar.
Mas nada disso aconteceu. S tinha olhos para o conde.
Estava deitado no centro da enorme cama, de olhos fechados, o rosto muito 
plido, bem diferente de seu aspecto normal, sadio e robusto.
O corpo atltico e a pele bronzeada tinham perdido o vio.
Dorina contemplou-o consternada.
Harry adiantou-se e parou ao lado da cama.
- Est acordado, Oscar? Trouxe sua prima Dorina para v-lo.
com esforo o conde abriu os olhos, viu Dorina olhando para ele e disse:
- Eu... eu estou me sentindo muito mal... Ser que pode... me arranjar um 
bom mdico?
- O mdico est viajando, mas eu lhe trouxe algo que vai ajud-lo a 
melhorar, com toda certeza. Mas primeiro quero saber o que lhe fez mal.
- No posso imaginar... o que tenha sido... retrucou o conde, falando com 
dificuldade. - A no ser que tenha sido... o vinho... que Jarvis me 
trouxe.
- Que vinho? Onde est a garrafa? - perguntou Dorina.
Houve um silncio, como se o conde estivesse com dificuldade para pensar, 
depois ele falou:
- Jarvis me disse... que tinha trs garrafas... de um vinho especial, 
envelhecido... que pretendia dar de presente... ao Prncipe Regente...
Respirou fundo, tomando flego, e prosseguiu:
- Disse, porm, que... como eu era conhecedor queria que eu 
experimentasse um copo... mas como no podia oferecer... a Harry 
tambm... ele me trouxe um copo... aqui no quarto... enquanto eu vim me 
trocar...
- Isso deve ter sido por volta das quatro horas interferiu Harry -, e em
seguida Jarvis voltou para Londres.
- Eu bebi... s a metade do copo... - prosseguiu o conde -, porque no 
gosto de... beber entre as refeies...
Parou para tomar flego de novo e continuou:
- Disse a Jarvis... que o Prncipe... iria gostar... mas assim que ele 
saiu... joguei o resto fora...
- E com isso salvou sua vida! - exclamou Dorina.
- O que... quer dizer?
- Quero dizer - retrucou Dorina, falando pausadamente -, que o vinho 
estava envenenado!
77

CAPTULO V

Por instantes os dois homens ficaram olhando para Dorina, perplexos, at
que o conde fechou os olhos e disse:
- Pelo amor de Deus! Eu no estou... conseguindo escutar!... Nem 
enxergar!
- Fique quietinho e espere uns minutos que eu vou lhe preparar um
remdio - disse Dorina.
Pegou a cesta e colocou-a na mesa, do outro lado do quarto, dizendo a 
Harry em voz baixa:
- Acho que ele foi envenenado com beladona ou dedaleira.
- Por que acha isso?
- Por causa dos sintomas - retrucou Dorina. Essa palidez arroxeada  
tpica de intoxicao com beladona,  falta de oxigenao. E os vmitos 
tambm. Esse entorpecimento  caracterstico de intoxicao com 
dedaleira, e quase sempre acaba em convulses!
- Ser que voc pode fazer alguma coisa?
- Claro. Felizmente tenho um elixir pronto, que
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fiz com a receita de mame, h dois dias, para uma criana que comeu
frutas de beladona.
Pegou um frasco em sua cesta, sacudiu-o bem e despejou o contedo num 
copo que estava sobre a mesa. Depois, aproximou-se da cama, passou um 
brao sob a cabea do conde, levando o copo aos lbios dele, e falou:
- Beba isto e vai se sentir melhor.
Sabia que outro sintoma era dificuldade para e engolir, mas o conde logo 
obedeceu e com esforo tomou todo o remdio.
Houve uma pausa prolongada, depois ele disse:
- Que gosto... estranho!
com delicadeza, Dorina ajeitou-o nos travesseiros de novo, perguntando:
- Est muito cansado para me ouvir? Se prefere dormir, conversaremos mais 
tarde.
O conde abriu os olhos.
- No. Gostaria de ouvir... voc explicar... por que acha que... eu fui 
envenenado...
Dorina sentou-se numa cadeira ao lado da cama e Harry apoiou-se numa das 
colunas entalhadas do dossel, para ouvi-la com ateno.
Pausadamente e com hesitao, por sentir-se constrangida, Dorina foi 
descrevendo a eles sua horrvel experincia aps o enterro do velho 
conde. Explicou como ouvira o primo Jarvis fazendo um pacto com Satans 
pedindo a morte de Oscar em troca de qualquer sacrifcio.
S quando ela terminou de falar, com sua voz calma e suave,  que o conde 
relaxou a tenso e disse, incrdulo:
- Mal posso crer... que estou ouvindo... uma coisa dessas... aqui na 
Inglaterra!
- Estava pensando o mesmo - disse Harry. Se estivssemos no Oriente ou na 
frica, eu no estranharia.
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 Mas que logo seu primo fosse rebaixar-se a planejar um
assassinato,  algo que nunca me passaria pela cabea!
- Desde que ramos crianas - disse Dorina -, acho que ele sempre invejou 
a situao de William e
Charles.
- A tentao de saber que agora s havia uma pessoa entre ele e o condado 
foi demais para Jarvis comentou Harry.
O conde no disse nada, e Harry olhou para ele, preocupado.
- Pelo amor de Deus, Oscar, voc no pode morrer desse modo vergonhoso 
depois de ter lutado durante a guerra toda e sado sem um arranho!
- E quem disse... que eu... Vou morrer... perguntou o conde, com voz 
sonolenta.
- O senhor no vai morrer! - disse Dorina, com firmeza. - Se morrer, sei 
que Jarvis gastar todo o dinheiro com a vida devassa que leva e o 
condado vai ficar pior ainda do que j est.
Apesar de estar meio entorpecido, o conde esboou um sorriso e disse, com
dificuldade:
- Ainda... me fazendo sermo... Dorina?
- No agora, mas depois terei muito que falar! Percebeu que o conde 
estava achando graa, porm
ele precisava descansar e ela preparar outra dose mais forte do mesmo 
elixir.
Pegou a cesta e, encaminhando-se para a porta, fez um gesto com a cabea 
para que Harry a seguisse.
Saram do quarto e ento ela falou:
- Voc pode achar que estou imaginando coisas, mas enquanto eu estava 
lhes contando, agora h pouco, sobre o primo Jarvis e como ele invocou 
Satans, neste quarto, eu senti o mesmo horror daquele dia.
- Posso entender isso - disse Harry, solidrio -, deve ter sido 
assustador.
Dorina olhou-o nos olhos, para ver se ele estava mesmo solidrio.
- Ainda  assustador, e eu no posso deixar de sentir que, de alguma 
forma, ele deixou o quarto impregnado de maldade, que pode afetar o 
conde.
- Est me dizendo que acha que o feitio, ou seja l o que for, ainda 
est no quarto?
- Ou ficou impregnado no quarto quando ele invocou o Satans, ou ento 
so as vibraes ms dele que chegam at aqui, mesmo ele estando em 
Londres. Afinal, Jarvis est desejando a morte do conde.
- Voc est me deixando arrepiado!
- E tem motivo para ficar, mesmo! No  fantasia minha.
- E o que podemos fazer, ento?
- Eu gostaria, se acha que o conde no se importaria, de pedir para meu 
pai vir aqui expulsar as ms vibraes. Assim, acho que o conde se 
sentiria mais forte para combater outras maldades que Jarvis esteja 
planejando.
Harry fitou-a, boquiaberto.
- Vai pedir para seu pai exorcizar a influncia satnica que est 
sentindo? Eu tambm j estou sentindo, s de falar!
- Eu gostaria muito, desde que no perturbe o conde ou o deixe zangado.
- Vou falar com ele - disse Harry -, enquanto voc prepara o elixir.
- Era o que eu esperava - retrucou Dorina, com um sorriso.
Ento foi  procura da senhora Meadows que, conforme imaginava, ficou 
preocupada de saber que o conde estava com intoxicao.
- Deve ter sido alguma coisa que ele comeu disse Dorina, que no queria 
alarmar os empregados ou deix-los desconfiar do que de fato acontecera.
81
- Tenho certeza de que no foi nada feito pela cozinheira - disse 
depressa a senhora Meadows. - Ela est tentando agradar o conde desde que 
ele chegou aqui.
- Claro - disse Dorina. - Eu acho que, enquanto ele cavalgava ou passeava 
pelo bosque, deve ter inadvertidamente colhido alguma fruta venenosa e 
posto na boca. A senhora se lembra como mame sempre avisava as crianas 
da aldeia para no fazerem isso.
-  isso que deve ter acontecido! - concordou a senhora Meadows. - Os 
homens nunca deixam de ser crianas.
Ajudou Dorina a preparar as ervas que trouxera e, quando conseguiram um 
copo cheio de lquido, a moa voltou para o quarto do conde.
Pela expresso de Harry, percebeu que eles j haviam conversado e que o 
conde concordara com sua sugesto.
Estava deitado, com os olhos fechados. Continuava com aquela palidez 
arroxeada, o que lhe dava certeza de no ter se enganado ao pensar que 
Jarvis usara beladona ou dedaleira.
Dorina sabia que essas plantas cresciam em profuso no condado, e Jarvis 
no devia ter tido dificuldade em colh-las.
Fez com que o conde engolisse a nova poro de elixir, depois tomou-lhe o 
pulso, percebendo que a pulsao estava bastante baixa.
Olhou para Harry.
- Seria melhor deixarmos o conde dormir, enquanto meu antdoto faz 
efeito.
Harry concordou e, quando saram do quarto silenciosamente, Dorina sabia 
que o conde estava inconsciente.
82
- Posso chamar papai? - disse, j no corredor.
- Vou levar voc at sua casa - disse Harry -, assim podemos trazer o
pastor na carruagem. Ser mais rpido assim, no quero deixar Oscar
sozinho por muito tempo.
- Claro.
- J mandei o valete ficar l no quarto com ele, caso precise de algo,
mas no  a mesma coisa.
- Estou vendo que voc  um bom enfermeiro! brincou Dorina.
- Aprendemos a cuidar uns dos outros lutando juntos no exrcito. s vezes
um de ns caa com febre, ou intoxicado pela comida engordurada demais
dos espanhis.
Chegaram  carruagem e Harry ajudou-a a subir. Quando j estavam a
caminho ele falou, baixo, para que o cocheiro, l atrs, no escutasse:
- Voc acha que ele ficar bom?
- Tenho certeza de que o antdoto de mame, que j provou ser muito
eficaz, ir salv-lo. Agora estou com mais medo das vibraes que Jarvis
deixou naquele quarto e de outros feitios que possa tentar, de longe.
- Se eu no tivesse visto o estado de Oscar, acharia que voc estava
inventando isso tudo! - disse Harry.
- Eu tambm vivo me repetindo isso, desde que presenciei aquela cena
horrvel. Mas agora me sinto culpada de no ter contado logo ao conde o
que o Primo Jarvis estava tramando.
- Duvido que ele fosse acreditar em voc - disse Harry, com franqueza. -
Agora, entretanto, no h dvida de que seu primo  no s uma ameaa,
como tambm um criminoso.
Dorina concordou em silncio.
Quando chegaram ao presbitrio, ela desceu da carruagem e correu para
casa, enquanto Harry teve o tato de no segui-la. Sentou-se l fora e
ficou  espera.
Dorina sabia que quela hora o pai j teria voltado da igreja, aps o
servio matinal. Encontrou-o no escritrio. Ele sorriu ao v-la entrar.
- Est um dia lindo, Dorina, e j estou pensando em ir para meu jardim.
- H algo que gostaria que o senhor fizesse primeiro, papai.
- O que ?
Ela hesitou antes de perguntar, titubeante:
- O senhor j fez algum trabalho de exorcismo? Falou, achando que seria
pouco provvel, mas a
resposta do pai a surpreendeu.
- No  coisa muito frequente, no fao isso h muitos anos. Quando eu
era jovem, tinha um amigo que vivia em Essex, e nesse condado, como 
sabido, h mais bruxaria do que em qualquer parte da In glaterra. - Fez
uma pausa, como se estivesse pensando. - As feiticeiras Chelmsford so
famosas e em 1556 houve um julgamento que as condenou  forca. Foram as primeiras na
Inglaterra.
- Isso foi h muito tempo, papai - disse Dorna depressa, querendo evitar
que o pai comeasse uma longa dissertao sobre coisas acontecidas no 
passado
- Bem, havia bruxas, feiticeiras e feitios quando estive l - disse o 
pastor -, e meu amigo, que era mais velho do que eu, exorcizou vrios 
casos. Como eu o ajudava sempre, acabei ficando um perito nisso.
- Era exatamente o que eu queria saber. Quero que venha comigo, agora, 
papai. O senhor vai exor cisar o mal que o primo Jarvis deixou no quarto
do velho conde quando invocou Satans e os deuses do dio e da morte. 
Eu o ouvi fazer isso.
O pai a fitou, boquiaberto.
- O que est me dizendo, filhinha?
- Estou lhe dizendo, papai, que o primo Jarvis est usando Magia Negra
para tentar matar o conde!
O pastor achou to inacreditvel que Dorina levou um bom tempo para 
convenc-lo de que no estava exagerando nem fantasiando. Contou com 
detalhes a cena do dia do enterro e, quando explicou que o conde fora 
envenenado, o pastor falou, com severidade:
- Isso precisa ter um fim imediatamente, e Jarvis deve ser preso por 
tentativa de assassinato!
- Duvido que algum acredite, papai, assim como o senhor no estava 
acreditando. O mais importante agora  tentarmos anular a maldade de 
Jarvis. Por isso quero que v comigo  Casa Grande para ver o conde e 
exorcizar o mal que sinto ainda presente naquele quarto.
- Irei imediatamente.
Dizendo isso, pegou o Livro de Oraes, que estava na escrivaninha. Sem 
mais uma palavra, seguiu Dorina.
Harry cumprimentou-o, e os trs se acomodaram na carruagem. Dorina ficou 
espremida num canto, ao lado do pai, pois aquele era um veculo para duas 
pessoas. Entretanto, seria muita perda de tempo terem ido com uma 
carruagem das grandes.
Em dez minutos chegaram  Casa Grande, e antes de entrar no quarto do 
conde o pastor colocou a sobrepeliz.
Harry abriu a porta e, quando entraram, viram que o conde dormia.
Temendo que ele tivesse morrido, Dorina correu para tormar-lhe o pulso.
Para seu alvio notou que a pulsao estava mais forte, o que significava
que o antdoto de sua me estava fazendo efeito. Percebeu tambm que a
pele do conde j no estava mais to arroxeada.
Sentiu-se mais confiante, ento.
O valete do conde, fiel e dedicado, que o acompanhara no exrcito como
ordenana, saiu do quarto silncioso assim que eles entraram.
Harry fechou a porta, e o pastor preparou-se para comear o trabalho de
exorcismo.
Dorina nunca havia presenciado coisa semelhante.
Achou que havia algo de confortador e autoritrio na voz do pai, quando
ele ordenou que os espritos maus se afastassem e invocou a presena de
Deus. E as oraes eram bonitas.
Talvez por estar intimamente envolvida, sentiu-se bastante afetada.
Quando o pai iniciou a ltima prece, Dorina sentiu que as vibraes no 
quarto haviam mudado. Era como se o aposento houvesse se iluminado com
uma claridade que no vinha do sol, mas, sim, emanava do divino.
Ajoelhou-se ao ouvir a bno final, quando o ps tor fez o sinal-da-cruz 
no quarto e mais uma vez sobre o conde.
Nesse momento, o conde abriu os olhos.
Por instantes, fez-se o silncio. Ento, o pastor saiu do quarto para 
recuperar-se de sua luta contra as foras das Trevas e do Mal.
Dorina ergueu-se.
- Foi muito tocante - disse Harry, em voz baixa
- Eu me sinto melhor! Obrigado, Dorina - falou o conde.
Dorina sentiu como se estivesse voltando de um mundo distante para o 
mundo cotidiano, que exigia dela atitudes prticas.
Foi at a mesa onde deixara o elixir preparado, en cheu mais um copo e 
levou-o para o conde, que bebeu o lquido sem comentrios.
Seria preciso preparar mais ervas para que o conde pudesse tomar o 
antdoto durante a noite toda.
86
o pastor voltou ao quarto.
- Como se sente, my lord?  - perguntou ele.
- Um pouco melhor - retrucou o conde. - Obrigado por ter vindo, e pela
 cerimnia que acabou de realizar.
- Estou certo de que ser eficaz - disse o pastor. - Por outro lado,
depois do que Dorina me contou, acho que devemos fazer algo para impedir 
que Jarvis o ataque de novo.
- Estava pensando justamente nisso - disse Harry.
-  bvio que, se ele acha que o veneno funcionou como pretendia, estar 
esperando em Londres a notcia de sua morte.
- Ento vai ficar decepcionado - disse o conde.
- Acabo de imaginar um jeito de dar uma lio que Jarvis jamais 
esquecer! - prosseguiu Harry.
Todos olharam para ele, e o conde disse pausadamente:
- Seria uma satisfao, Harry, dar uma surra nele, ou mesmo desafi-lo 
para um duelo, mas, se ele est decidido a livrar-se de mim, haver 
muitas outras oportunidades em que poder ser mais bem-sucedido do que 
desta vez.
Dorina no conteve um pequeno grito de horror.
- Quer dizer que ele continuar tentando mat-lo? - Claro que sim! - 
respondeu o conde. - Afinal,
ele s tm a ganhar com minha morte, alm de poder Pagar as dvidas.
- Como pode suportar saber que essa ameaa ir pairar sobre sua cabea 
dia aps dia, ano aps ano?
- perguntou Dorina.
- Pois , no sei - disse o conde.
- Isso  intolervel! - exclamou o pastor. -  preciso fazermos algo, e
imediatamente! Vou falar com Jarvis.
- Duvido que ele o oua, papai.
87
Dorina lembrou-se como Jarvis desprezava seu pai e entendeu, ento, que
no era s por serem pobres como ela imaginava. Sendo um adorador de
Satans Jarvis devia odiar algum que fosse servo de Deus que acreditasse
no bem.
- Ento o que posso fazer? - perguntou o pastor, um tanto desolado.
- Precisamos fazer algo! - disse Harry, com firmeza. - Como sua filha 
disse, reverendo, nenhum homem suportaria viver com uma espada sobre a 
cabea, sabendo que pode haver veneno em alguma comida, ou que pode ser 
atingido por uma bala, ou que algum acidente possa lhe acontecer a 
qualquer hora do dia ou da noite.
- Voc est me fazendo sentir pior do que j estou, Harry! - disse o 
conde, com voz de riso.
Vendo-o falar quase com naturalidade, Dorina sentiu o corao mais leve, 
percebendo que o antdoto estava fazendo efeito. Nem era preciso 
perguntar se a nusea havia passado.
Era evidente que estava-bem melhor do que quando chegaram ali.
- Ser que no estamos cansando voc? - perguntou Harry. - Se quiser, 
Oscar, podemos descer e continuar a conversa na biblioteca.
- J que esto discutindo a minha vida - retrucou ele -, prefiro que 
fiquem aqui. Quero ouvir tudo e participar das decises que forem 
tomadas.
- Ento ns ficaremos - disse Dorina. - Mas procure poupar-se o mximo. 
Sei que est com dificuldade para falar e para engolir.
- Como voc sabe... - comeou o conde, mas mudou de tom. - No sabia que
voc entendia tanto de ervas, alm de tantos outros predicados!
- Tudo o que sei aprendi com mame. Todos da aldeia a procuravam quando 
ficavam doentes, e acreditavam
88
 que ela fosse uma fada, porque suas ervas funcionavam como mgica.
Dorina olhou para o pai, com certa provocao.
-  verdade - disse ele. - Eu sempre reprovei curandeirismo e feitiaria
de qualquer tipo. Mas as pessoas por aqui preferem acreditar em magias...
- Seja o que for - sorriu o conde -, sou muito grato pelo que Dorina fez 
por mim! Realmente, hoje de manh, quando no conseguia falar nem 
engolir, pensei que fosse morrer!
- Isso era o que seu primo Jarvis queria! - disse Harry, com raiva. - Ah, 
se eu puser as mos nesse rapazinho, ele vai ficar sem poder falar e 
andar por uns bons dias!
- Ele vai ficar ainda mais convencido de que s se tornando conde de 
Yardcombe vai conseguir o que quer da vida! - disse Dorina, pausadamente.
Fez-se silncio, enquanto todos pensavam em Jarvis.
- Tive uma ideia - disse Dorina, de repente.
- O que ? - perguntou Harry.
- Lembrei de algo que voc disse agora h pouco, Harry. Voc falou que 
Jarvis estar em Londres esperando a notcia da morte do primo. Vamos 
supor que o avisemos de que o conde est muito mal. Acho que Jarvis viria 
correndo, pronto a tomar posse de Yarde. Da, talvez pudssemos assust-
lo de alguma forma com ameaas, ou at com violncia, para que desistisse 
de tentar de novo...
A voz morreu-lhe na garganta e fz-se silncio, enquanto os trs homens 
refletiam sobre o que ela dissera.
Foi Harry quem falou primeiro.
- Creio que tem razo, miss Stanfield. O melhor que temos a fazer 
deixar Jarvis perceber que sabemos o que ele fez e que, se tentar qualquer
outra coisa que resulte na morte de Oscar, ele ser imediatamente
preso sob suspeita de assassinato, e poder ser condenado  forca!
- Voc acha que ele lhe dar ouvidos? - perguntou o pastor.
- Eu farei com que me escute! - disse Harry, bravo. - No h outra
alternativa, h? O conde ficou calado.
- Como far para convenc-lo de que o conde est realmente muito mal? -
perguntou Dorina, depois de instantes.
- Eu escreverei uma carta - disse Harry, decidido -, em tom to amigvel 
que ele no ter a menor ideia de que eu possa desconfiar dele.
- E o que dir, mister Harrington? - perguntou o pastor.
- Direi que meu amigo Oscar est  morte, e eu acho que os parentes devem 
ser informados, mas, como no conheo nenhum deles, acho melhor que ele 
venha imediatamente para c ajudar-me a entrar em contato com os parentes 
mais prximos.
- tima ideia! - exclamou Dorina. - Pois tendo ficado no exterior com o 
conde, voc no pode mesmo conhecer os parentes dele, a no ser Jarvis.
- Ele  realmente o nico Yarde com quem tive contato desde que cheguei 
na Inglaterra - falou Harry -, e tenho certeza de que Jarvis vai gostar 
disso e no vai desconfiar que tenho outros motivos para cham-lo aqui.
- Voc deve tomar cuidado - aconselhou o pastor -, para no se prejudicar 
fazendo alguma agresso fsica a Jarvis, porque da ele poder se fazer 
de vtima e ganhar simpatias.
- No posso acreditar que algum possa ser solidrio com um homem que  
um assassino! - retrucou Harry. - Pois tenho certeza de que, se miss 
Stanfield no soubesse como tratar do envenenamento, no estaQramos
aqui, agora, conversando alegremente, mas sim tratando de um enterro!
- Eu fiquei assim to mal? - perguntou o conde.
Ainda falava com certa dificuldade, mas a cor voltara a seu rosto, e ele 
j estava quase com a aparncia normal.
Contudo, Dorina sabia, por experincia, que o veneno levava tempo para 
ser completamente eliminado do organismo.
- Acho que agora nosso paciente deveria dormir, e ns deveramos descer 
para que ele no seja perturbado. Como j decidimos o que ser feito, 
podemos tratar dos detalhes sem incomod-lo.
O conde fez meno de protestar, mas Dorina colocou a mo sobre a dele.
- Por favor, seja sensato - pediu. - Embora talvez no perceba, o senhor 
passou por uma experincia traumtica e precisa ir com calma. Mas eu lhe 
garanto que agora no h mais perigo de morrer.
Notou um brilho no olhar dele quando respondeu:
- Est bem, enfermeira! Vou aceitar sua imposio por enquanto, mas no 
por muito tempo!
Saram todos do quarto, deixando o valete de vigia novamente.
J estavam l embaixo, sentados confortavelmente, quando Harry falou:
- Tenho certeza de que vo me achar exageradamente dramtico, mas sinto 
que no devemos deixar Oscar sozinho nem por um minuto.
Dorina arregalou os olhos.
- Voc acha que Jarvis pode... pode mat-lo?
- Se quer saber a verdade - retrucou Harry -, acho que seu primo  louco! 
Devia ser trancado num hospcio, mas, enquanto est solto, temos que 
estar cientes de que nada o deter em seu desejo insano de se tornar
conde de Yardcombe.
91
- Quer dizer que... - comeou o pastor.
- Quero dizer que - interrompeu Harry -, temos que encarar o fato de que
ele poder tentar outra coisa, e at atirar em Oscar, quando descobrir
que o plano de envenenamento falhou.
Fez uma pausa, e acrescentou:
- Estive na guerra por muito tempo e aprendi que um inimigo, quando 
encurralado, usa de quaisquer meios, por mais ultrajantes que sejam, para 
conseguir seu objetivo e defender-se.
Dorina sabia que ele tinha razo.
- O que acha, ento, que devemos fazer? - perguntou ela, assustada.
- No seria certo voc se envolver nisso, miss Stanfield, mas eu pretendo 
ficar ao lado da cama de Oscar  noite, vigiando, em turno com o valete, 
de modo que ele nunca fique sozinho.
- Mas  claro que eu tambm posso cuidar dele protestou Dorina. - Como 
papai sabe, j fui enfermeira de muita gente na aldeia e de mame tambm.
- Isso  verdade - concordou o pastor. - Dorina  tima enfermeira, alm 
disso acho que ela precisa observar o efeito das ervas que est 
ministrando ao conde.
- Est bem - concedeu Harry. - Claro que toda ajuda de miss Stanfield 
ser bem-vinda. Mas, para resguardar sua reputao, ela no dever ficar 
aqui  noite desacompanhada.
-  claro que no - concordou o pastor.
- Vou mandar um cocheiro levar a carta a Londres
- disse Harry -, e tenho certeza de que Jarvis no viajar  noite. Eu e 
o valete de Oscar ficaremos com ele hoje, a noite toda. Voc vir amanh 
cedo com o remdio, assim que puder. Depois  s esperar para vermos o 
que Jarvis far quando pensar que Oscar est  morte.
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- Parece um bom plano - disse o pastor.
- Tambm acho - concordou Dorina. Ergueu-se. - Papai, acho que agora 
devamos voltar para casa, pois eu preciso preparar mais ervas para esta 
noite e amanh cedo.
- O cocheiro vai lev-los para casa - disse Harry -, e vou falar com 
Oscar antes que ele durma.
- Deixe-o dormir bastante - recomendou Dorina -, e se fizer a gentileza 
de mandar buscar o preparado de ervas daqui a umas trs horas...
- Claro! E mais uma vez obrigado, miss Stanfield. Nem sei como agradecer-
lhe por ter salvo a vida de um homem que  mais do que um irmo para mim.
Algo na voz dele a comoveu, mas ficou sem saber o que responder.
J a caminho de casa, Dorina ps-se a rezar para que o conde se salvasse 
dessa vez e em qualquer outra ocasio que o primo Jarvis pudesse atacar.
93

CAPTULO VI

Dorina acordou cedo, preocupada com o conde e as ideias diablicas que
Jarvis pudesse pr em prtica.
Tinha certeza de que ele era louco. A sede de poder e o desejo de ser o
cabea da famlia Yarde tinham obscurecido sua mente.
Contudo, precisava ser prtica, por isso foi ao quintal colher as ervas
que eliminariam os ltimos vestgios do veneno com que ele tentara
destruir o conde.
Fora realmente muita sorte do conde ter bebido s meio copo ou talvez
menos do vinho, caso contrrio teria, sem dvida, morrido.
Agora estava vivo, felizmente. Mas por quanto tempo? Essa era a questo.
Dorina levou as ervas para a cozinha, e Nanny ajudou-a a prepar-las.
Lembrou ento que deveria dar tambm um tnico ao conde.
As crianas que sua me tratara, com caso de envenenamento por beladona,
sempre ficavam fracas e sem nimo, por algumas semanas nem podiam ir 
escola.
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Ficou pensando no que daria a ele, quando se lembrou de repente que, h
um ms mais ou menos, um amigo de seu pai, que era missionrio, enviara-
lhe um presente da China. Junto com uns cactos raros, uma erva
desconhecida que ele dizia na carta ser muito preciosa na China e
reservada apenas para o imperador.
Escrevera ele:
"...  chamada ginseng e  conhecida por suas qualidades miraculosas de
rejuvenescimento e de dar mais resistncia s pessoas que viajam.
"Os chineses adoram essa planta e, portanto, eu ficaria muito mal se eles
soubessem que a enviei para fora do pas. Porm achei que interessaria a
voc. Junto estou mandando uma explicao detalhada de como deve ser
preparada".
O pastor, entretanto, no se interessou muito pelo ginseng, pois ficou
entusiasmado com as espcies novas de cactos.
Dorina foi buscar a caixa chinesa, no armrio do escritrio do pai,
contendo as razes de ginseng.
Seguiu rigorosamente as instrues de uso, e quando o elixir ficou pronto
pensou que, se essa raiz devolvesse a sade do conde, teria valido a pena
a longa viagem at ali, que levara quase um ano.
Serviu o caf para Peter e Rosabelle e, quando terminaram, disse:
- Hoje, tenho uma surpresa especial para vocs. Os dois olharam-na em
expectativa, e ela prosseguiu.
- Quando vocs voltarem das aulas, depois do almoo, pode ser que eu no
esteja aqui, mas Hawkins vai mandar um cocheiro com dois cavalos para
vocs
montarem.
As crianas deram pulos de contentamento. Dorina
prosseguiu:
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 - Mas tero que me prometer que no iro na direo da Casa Grande, nem 
do parque.
- Por qu? - perguntou Peter.
- Porque o primo Jarvis estar chegando de Londres e acho que vocs no 
vo querer encontr-lo.
- Claro que no - disse Rosabelle. - Est bem, ns no iremos.
Quando chegou  Casa Grande, na carruagem que fora busc-la s onze 
horas, encontrou o conde bem melhor, quase restabelecido.
Porm, ainda estava na cama, e, assim que Dorina abriu a cesta e falou 
das ervas e razes, ele ficou muito interessado no ginseng e disse, em 
tom de brincadeira, sentir-se muito honrado em experimentar um preparado 
que era reservado s para o imperador.
- Tem certeza de que isso no vai me envenenar?
- perguntou ele, de brincadeira.
Dorina disse, porm, que podia confiar no amigo do pai, sem medo.
- Quem sou eu para desconfiar de voc, Dorina? Depois que me salvou a 
vida com sua inteligncia e seus preparados, no reclamo de novo, nem do 
gosto ruim do remdio.
Dorina sorriu e suspirou.
- S tenho medo que o primo Jarvis lhe d algo pior.
- No acredito que ele tente envenenar voc de novo! - disse Harry. - 
Afinal, ele agiu com esperteza, dando-lhe o vinho, em segredo; assim, se 
voc morresse, ningum poderia estabelecer qualquer relao entre sua 
morte e ele.
- Concordo com voc - disse, o conde. - E Jarvis foi embora muitas horas 
antes de o veneno comear a fazer efeito.
- Isso me parece bastante estranho - falou Dorina.
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- Realmente, h venenos que tm efeito instantneo - retrucou Harry -,
mas diz-se que os romanos antigos aperfeioaram um veneno que leva mais
de dois meses para fazer efeito, o que torna absolutamente impossvel, na
ocasio da morte da vtima, estabelecer o culpado do crime.
Dorina estremeceu. No gostava de dizer, mas pensava sempre que, se 
Jarvis tivesse usado algum veneno diferente que ela no reconhecesse ou 
que no tivesse o antdoto pronto, como fora o caso, o desfecho teria 
sido outro.
Jarvis no imaginara que pudesse haver por ali algum que entendesse de 
ervas.
Dorina tinha certeza de que as mulheres da sociedade, como lady Maureen, 
no teriam a menor ideia do que fazer ao v-lo doente daquele jeito.
Como se o conde tivesse lido seus pensamentos, mais uma vez falou:
- Eu lhe sou muito grato, Dorina, e tambm acho que Deus e os anjos me 
protegeram.
- Tenho certeza disso - retrucou ela. - Sinto tambm que este quarto 
ficou muito diferente depois que papai exorcizou todo o mal.
- S que o mal est voltando - lembrou Harry -, e  melhor ficarmos 
preparados para tudo, Oscar, para no sermos surpreendidos.
Dizendo isso, tirou do bolso uma pistola e entregou-a ao conde.
- Est carregada. Deixe-a sob as cobertas, ao alcance da mo.
O conde pegou a arma, dizendo:
- No acredito que Jarvis atire em mim. Se fizesse isso no teria como se 
livrar da acusao de assassinato.
- Ento, o que ele far? - perguntou Dorina, assustada.
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- Temos que esperar para ver - retrucou Harry. - E, a propsito, Oscar, 
acho que seria boa ideia dizer ao seu valete para ir receb-lo no hall 
com a boa notcia da sua recuperao.
O conde olhou interrogativamente para o amigo, e Harry explicou:
- Isso o far perceber que, se quiser acabar com voc, ter que agir 
rpido, e isso  exatamente o que queremos.
- Estou entendendo - retrucou o conde, e Harry saiu do quarto.
Depois que ele saiu Dorina aproximou-se da cama e disse ao conde:
- Eu lhe trouxe algo... que... que gostaria que usasse...
Meio sem jeito e enrubescida, colocou na mo que ele estendeu um pequeno 
crucifixo de marfim numa corrente de ouro.
- Pertenceu a mame - disse ela. - Voc pode achar graa... mas eu acho 
que isso proteger voc...
- Eu no acho graa - retrucou o conde, com voz grave. - Na verdade, 
estou profundamente comovido. Dorina, e muito grato pelo trabalho que 
est tendo co migo.
Ela ergueu os olhos para ele e sorriu.
- Eu acho - prosseguiu ele -, e espero que esteja certo, que agora voc
me perdoou e j no me odeia tanto como quando eu cheguei a Yarde.
Ela enrubesceu mais ainda e o conde repetiu:
- Eu lhe sou grato e lhe devo muito. Se eu sobreviver vou tentar 
compens-la por todos os erros que cometi.
- Por favor, no quero que se sinta assim... Todos j esto muito 
satisfeitos que Yarde tenha voltado ao que era antigamente...
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- Tambm era isso o que eu queria! - disse o conde.
Ele viu o olhar de felicidade nos olhos de Dorina e achou notvel que 
algum to atraente quanto ela estivesse sempre pensando nos outros e 
nunca em si.
Harry voltou para o quarto e fechou a porta, dizendo:
- H uma carruagem se aproximando e, a menos que eu esteja enganado,  
seu primo Jarvis chegando para regozijar-se com a sua morte.
- Vai ficar muito decepcionado.
- Por favor, por favor, tenha cuidado... - pediu Dorina.
O conde recostou-se nos travesseiros e ela o achou magnfico naquela cama 
imponente, usando uma camisa de dormir de seda sob um roupo tambm de 
seda azul-escuro.
Harry sentou-se perto da janela aberta, por onde entrava o sol, e Dorina 
sentou-se numa cadeira aos ps da cama.
Os trs pareciam calmos e relaxados, mas ela sabia que estavam todos 
tensos. Comeou a rezar para que as coisas no fossem to ruins quanto 
temia.
De repente a porta abriu-se e Jarvis irrompeu no quarto. Era visvel que 
subira correndo a escada, pois estava ofegante e nem tirara o casaco de 
viagem.
Parou por instantes, com pose teatral e ar de espanto. Depois exclamou:
- Meu caro Oscar! Sa de Londres assim que soube que voc estava mal, mas 
agora, para minha satisfao, acabo de ouvir seu valete dizer que voc 
est melhor.
- , estou melhor - retrucou o conde -, mas foi muita gentileza sua 
incomodar-se em vir.
- E como poderia deixar de vir? Fiquei estarrecido com o que dizia a 
carta de Harry! - Olhou para Dorina e disse: - Estou surpreso de 
encontr-la aqui Dorina! Foi voc a responsvel pelo pronto 
restabelecimento de nosso amado primo?
-  verdade - disse o conde. - Temos que agradecer a Dorina por me curar 
to depressa. Alis, amanh pretendo levantar-me.
- Esplndido! Esplndido! - exclamou Jarvis. Isso merece uma comemorao, 
at j pedi a seu valete para trazer uma garrafa de champanhe.
Sorriu para os trs com cara de inocente, dizendo:
- Preciso de um relaxante depois de tanta correria para chegar aqui e, 
sem dvida, quero fazer um brinde a sua sade, meu caro Oscar!
- Quanta gentileza!
O conde precisou se conter para no olhar para Harry ou Dorina,
expressando surpresa por Jarvis estar usando o mesmo truque de novo.
Pouco depois Walter entrou no quarto trazendo uma bandeja com quatro 
taas e duas garrafas de champanhe, ambas fechadas.
- O senhor Jarvis pediu champanhe para comemorar, my lord - disse ele, 
colocando a bandeja sobre a mesa -, mas, como h dois tipos de champanhe 
na adega, eu trouxe uma garrafa de cada uma para ver qual o senhor 
prefere.
- Qualquer uma est bem para mim - retrucou o conde. - Voc tem alguma 
preferncia, Harry?
Harry meneou a cabea. Walter abriu uma das garrafas e encheu quatro 
taas. Deu uma a Dorina, levou outra ao conde, na cama, entregou a 
terceira a Harry e, finalmente, deu uma taa a Jarvis e saiu do quarto.
Jarvis ergueu a taa, dizendo:
- A Oscar! Que voc continue saudvel e que tenha tanto sucesso no futuro 
quanto teve no passado!
- Obrigado! - respondeu o conde.
100
Naquele momento, entretanto, assustando todos, apareceu subitamente um 
enorme pssaro preto voando pelo quarto.
Surgiu assim do nada, e mais tarde Dorina achou que s poderia ter estado 
escondido sob o casaco de viagem de Jarvis.
Era um pssaro grande e feio, batendo as asas estrepitosamente, voando de 
um lado para outro. Instintivamente, Dorina pulou da cadeira e correu 
para o canto do quarto.
- Faa-o sair pela janela, Harry - ordenou Jarvis.
O pssaro, entretanto, pousou sobre o dossel da cama do conde. E enquanto 
todos o olhavam, tentando toc-lo para a janela, Dorina viu Jarvis parar 
perto da mesa de cabeceira, onde o conde largara a taa para melhor 
observar o pssaro, e, num movimento rapidssimo, deixar cair algo na 
taa do primo.
Se ela tambm estivesse observando o pssaro como os outros, no teria 
percebido nada. Mas uma fora estranha, talvez o poder que protegia o 
conde, f-la notar a ao de Jarvis.
Foi tudo muito rpido e, no instante seguinte, ele j estava ao lado de 
Harry, ajudando-o a fazer o pssaro sair pela janela.
Num gesto rpido tambm, Dorina trocou sua taa com a do conde.
Depois levou essa taa at a bandeja onde Jarvis deixara a dele.
Por instantes as duas taas ficaram lado a lado, ento, depois que Harry 
e Jarvis conseguiram expulsar o pssaro pela janela, Dorina percebeu o 
que fizera.
Quando Jarvis se virou, ela pegou a taa que originalmente era dele.
Tudo aconteceu to depressa que ela mal teve tempo de pensar, s de agir.
im
Jarvis aproximou-se dela, dizendo:
- Que coisa extraordinria um pssaro desse tamanho entrar assim pela 
janela do quarto e nos dar tanto trabalho! Espero que no seja um mau 
agouro.
- Tambm espero! - disse Harry.
Jarvis, ento, pegou a taa que ficara na bandeja.
- Agora podemos voltar ao nosso brinde. - Ergueu a taa novamente. - A 
Oscar! - disse e virou o contedo da taa garganta abaixo.
Foi s depois que percebeu que todos o olhavam, com as taas cheias nas 
mos. Ningum bebera.
- O que houve? - perguntou. - Por que no esto bebendo?
Mal acabou de pronunciar essas palavras, levou a mo  boca, depois  
garganta.
Fez-se um silncio sinistro.
- Por que no dizem nada? - gritou. - Por que esto me olhando assim?
Dirigiu-se a Dorina, que estava mais perto, e ela recuou assustada, 
enquanto observava se o veneno que desconfiava ter ele tomado fazia 
efeito.
De repente ele explodiu, furioso.
-  voc!  voc, Dorina, que est me obstruindo! Pois bem, eu prometi 
voc em sacrifcio e  assim que vai ser!
Dizendo isso, retirou do bolso um fino e longo estilete.
Dorina olhava-o paralisada pelo horror, enquanto ele continuava a
gritar.
- Morra! Morra em sacrifcio a Satans, para que eu possa conseguir... o
que desejo...
As ltimas palavras foram ditas com dificuldade.
Ento, no momento em que ele ia trespassar o corao de Dorina com a 
arma, o conde, num esforo sobre-humano, atirou-se sobre ele.
Jarvis, que estava semi-inconsciente pelo efeito do
veneno, desta vez instantneo, caiu sobre Dorina, derrubando-a no cho.
O estilete rasgou-lhe o vestido no ombro e fez um corte superficial em 
sua pele, mas a cabea dela bateu com fora no cho sob o impacto do 
corpo de Jarvis.
O conde e Harry levantaram Jarvis depressa. Ele j estava morto e o 
estilete caiu-lhe da mo inerte.
Dorina perdera os sentidos e, quando abriu os olhos, estava deitada na 
cama, e o conde, sentado a seu lado, levava uma taa de champanhe a seus 
lbios.
- Beba um pouquinho - disse ele.
com um brao segurava-lhe os ombros, e com a outra mo pressionava a 
borda da taa contra seus lbios, forando-a a tomar um gole.
Ela o fitou com um olhar assustado.
- Est tudo bem! - disse o conde, com calma.
- Jarvis est morto e mais uma vez voc me salvou a vida, Dorina!
- Ele tinha... posto veneno... na sua taa...
- Eu percebi o que tinha acontecido quando vi voc levando a taa at a 
bandeja - disse o conde. - Voc foi muito corajosa e inteligente.
Ela no disse nada, mas pelo olhar o conde entendeu o que queria 
perguntar e falou:
- Eu disse a Harry para levar o corpo de Jarvis para o outro quarto e 
mandar um cocheiro buscar um mdico. Espero que ele ache que meu primo 
morreu de um ataque do corao por ter vindo to depressa de Londres at 
aqui, e depois ter bebido com rapidez aps tanto exerccio.
Dizendo isso, ele voltou a insistir para que Dorina bebesse um pouco.
- Vai faz-la sentir-se melhor. Voc sofreu um choque terrvel!
- Pensei que ele... fosse me matar... - murmurou Dorina.
103
- Ele era louco, mesmo! - disse o conde. - Mas agora j no nos ameaa, e
podemos esquec-lo. Tanto eu como voc!
Dorina no pde deixar de pensar que temia tanto por Rosabelle e, no
entanto, era ela mesma que Jarvis queria. Jamais poderia lhe ocorrer que
era ela o sacrifcio que Jarvis prometera a Satans.
Talvez porque sempre pensava em si como bem mais velha e no como a jovem
virgem e inocente que era requerida na Magia Negra.
- Esquea isso! Esquea tudo! No se preocupe com nada! - disse o conde,
com calma. - Voc foi magnfica, absolutamente magnfica! Mas agora quero
que voc v para casa. No quero que seja envolvida; quando o mdico
chegar  melhor que s encontre Jarvis e eu aqui.
Nesse momento Harry entrou no quarto, dizendo:
- Voc tem razo, Oscar. Dorina no deve ser envolvida nisso tudo. Vou
lev-la para casa e sugiro que voc descanse at o mdico chegar. Vamos
ter que parecer bastante convincentes, ao contarmos o que aconteceu.
- Pode estar certo de que serei! - retrucou o conde.
Ergueu-se, e Harry ajudou Dorina a levantar-se da cama.
- Voc consegue andar? - perguntou ele. - Ou prefere que eu a carregue?
- No... claro que posso andar!
Na verdade ainda estava muito trmula e abalada, mas decidira no parecer
fraca e indefesa diante do conde.
Lanou-lhe um olhar cheio de coragem e sorriu.
- Por favor, cuide-se bem, embora nada mais v acontecer agora... - disse
ela.
- Pelo menos  pouco provvel - retrucou o conde.
104
- Parece que foi tudo um pesadelo. Se no fossem vocs dois tambm
terem presenciado...
A caminho de casa, Dorina pensava o mesmo. Era como se tivesse sonhado.
Seria difcil fazer seu pai acreditar no que tinha havido na Casa Grande.
O champanhe envenenado, o enorme pssaro preto e Jarvis, depois de tentar
mat-la, morrendo instantaneamente com o efeito do veneno que pretendera
dar ao conde.
Ao v-la to calada, Harry disse:
- Quero que entre em casa e v direto para o quarto deitar-se. Eu falarei
com seu pai e contarei o que aconteceu, pedindo-lhe que tome providncias
para o enterro. Sei que Nanny entender que voc ficou perturbada e
precisa repousar, depois de ter visto seu primo Jarvis morrer.
Dorina no discutiu e, ao chegarem em casa, fez o que Harry sugerira.
Pouco depois Nanny foi procur-la no quarto.
- Quem diria que uma coisa dessas iria acontecer na pacata Little
Sodbury! - falou ela. - O senhor Harrington tem razo, deve ter sido um
choque para voc ver o senhor Jarvis morrer. Agora trate de se deitar que
vou buscar um leite morno.
- Eu estou bem... Nanny - conseguiu dizer. Mas de fato sofrera um choque.
Depois de dezenove
anos de vida tranquila, sem incidentes, agora experincias dramticas e 
terrveis sucediam-se sem intervalo.
Procurou acalmar-se, pensando que estava tudo terminado. O conde estava a 
salvo, Jarvis morto e no haveria mais bruxarias ou Magia Negra com vidas 
humanas sacrificadas em Yarde.
- Ningum acreditaria se eu contasse a verdade murmurou ela para si.
Antes de adormecer, ainda pensou se o pssaro preto existira mesmo ou se 
Jarvis os hipnotizara para que o vissem.
105
Foi s bem mais tarde, naquela noite, quando Nanny estranhou o fato de 
seu vestido estar rasgado, que Dorina percebeu que o corte em seu ombro 
tinha inflamado. O machucado comeou a latejar e, apesar de Nanny t-lo 
desinfetado com um dos preparados de sua me, o ferimento incomodou-a 
durante a noite toda. De manh Dorina quis levantar-se, mas Nanny 
insistiu para que ficasse na cama.
- No quero saber de discusses! - falou ela. Voc no est bem e vai 
ficar deitada at melhorar!
- No posso deixar voc fazer tudo sozinha, Nanny! - protestou ela.
Para sua surpresa, Nanny riu.
- No precisa se preocupar com isso, miss Dorina. Tenho duas ajudantes.
- Como assim? O que est dizendo?
- Bem, o conde mandou a senhora Meadows desde ontem para saber notcias 
suas e para me ajudar. Ela trouxe mais mantimentos e ordens do conde para 
que no deixasse voc fazer nada.
Dorina ouvia de olhos arregalados enquanto Nanny prosseguia.
- A senhora Meadows me mandou uma moa muito boa, que tem experincia na 
Casa Grande, e sugeriu que ficssemos com Mary Bell por alguns meses. Eu 
achei timo!
- Que boa ideia! - exclamou Dorina.
- Foi o que a senhora Meadows achou, pois a menina poderia ficar 
constrangida e nervosa de volta  Casa Grande agora.
- E ser que podemos nos dar a esse luxo?
- A esse e a muitos mais - retrucou Nanny -, se voc evitar que seu pai 
d dinheiro a torto e a direito para todos que o comovem.
Dorina riu.
- Isso vai ser difcil.
106
- Eu sei - disse Nanny -, mas vou convencer seu pai que "caridade comea
em casa". E, alm disso, se o conde continuar nos mandando mantimentos,
as coisas vo ficar bem mais fceis por aqui!
Dorina riu de novo.
Achou que no era m ideia, mas ainda estava fraca para tomar decises. 
Preferia, por enquanto, apenas obedecer.
Dormiu quase o dia todo, e, embora estivesse curiosa com o que estaria 
acontecendo na Casa Grande, sabia que Nanny no a deixaria levantar-se.
Rosabelle e Peter estavam satisfeitos porque mais uma vez mandaram-lhes 
cavalos para montar depois das aulas e eles passaram o dia todo 
explorando novos recantos do condado.
- Gostaria de que voc tivesse ido conosco, Dorina
- disse Rosabelle, sentando-se na cama da irm -, mas, como o conde tem 
sido to generoso, tenho certeza de que quando voc sarar ele vai mandar 
um cavalo para voc tambm ir passear conosco.
- No podemos impor nossa presena... - protestou Dorina, fracamente.
- Na Bblia est escrito: " mais abenoado o que d do que o que recebe" 
- retrucou Rosabelle. - Portanto, voc no deve impedi-lo de nos dar 
mantimentos e cavalos!
Dorina riu e Rosabelle beijou-a, dizendo:
- Sare logo! E no se preocupe conosco! Estamos sendo muito bonzinhos.
Foi o pastor quem levou a Dorina notcias do que estava acontecendo na 
Casa Grande.
Ficou sabendo que o mdico conclura que Jarvis morrera de um ataque do 
corao.
O corpo do jovem j fora levado para a igreja e o enterro seria na manh 
seguinte.
- Vai ser uma cerimnia muito simples e discreta,
j que nenhum dos parentes foi avisado - disse o pastor. - Posteriormente 
sero informados, claro, mas duvido que algum lamente a morte dele, j 
que Jarvis era impopular entre todos.
Dorina ficou calada, e o pai prosseguiu:
- O conde j est de p, fazendo planos para melhorias no condado. Disse-
me que est se sentindo muito bem graas a uma erva fortificante que voc 
deu a ele.
- Foi o ginseng que seu amigo lhe mandou da China - retrucou Dorina.
- Tinha esquecido disso! Os cactos que ele me mandou pegaram e esto 
crescendo. J esto o dobro do tamanho.
Depois que o pai se foi, Dorina ficou pensando que, agora que tudo 
passara, o conde estava a salvo e ocupado com seus planos, e no 
precisaria mais dela.
Em vez de ficar contente, porm, sentiu uma inexplicvel tristeza e uma 
dor que chegava quase a ser fsica.
Procurou afastar esses sentimentos, achando que estava sendo infantil. 
Era evidente que agora o conde no a procuraria mais, porque j podia 
cuidar de tudo no condado, sozinho, sem precisar dela.
Estava deprimida, mas tentava se consolar com a ideia de ter salvo a vida 
dele e, alm disso, com sua aproximao, ter melhorado as condies de 
vida para todos no condado. Principalmente para sua famlia.
Quando poderia imaginar que Nanny iria ter duas ajudantes? E que a mesa 
estivesse to farta quanto agora?
At mesmo seu pai parecia menos distante e retrado.
- Ao menos consegui alguma coisa... - murmurou ela, para si.
Porm no podia ignorar que desejava muito mais...
Queria ajudar o conde, queria que ele precisasse dela e pedisse seus 
conselhos.
Em outras palavras, queria estar ao lado dele.
Sentindo que isso era impossvel, os olhos de Dorina encheram-se de 
lgrimas. Podia parecer ridculo, mas o futuro sem ele seria vazio e sem 
interesse.
Era absurdo querer mais. Contudo queria muito, muito mais, e temia pr em 
palavras exatamente o que desejava...

CAPITULO VII

O conde acordou com uma sensao de bem-estar, s perturbada pelo fato de
ter que comparecer ao enterro de Jarvis s dez horas.
Harry esperava-o, l embaixo, tomando o caf da manh.
- Bem, pelo menos o dia est bonito para um enterro! - disse ele ao ver o 
amigo.
- Nem me fale nisso - retrucou o conde. Quando penso no que Jarvis fez, 
acho uma farsa, uma hipocrisia, ele ser enterrado como um cristo.
- Eu tambm. Por outro lado, Oscar, voc fez bem em evitar escndalo, que 
refletiria no nome da famlia. E deve agradecer a Dorina por isso.
O conde serviu-se e sentou-se  mesa.
- Concordo com voc. Ainda mal posso acreditar que uma moa to jovem, 
vivendo numa pequena aldeia, tivesse no s tido a coragem de enfrentar 
algum to mau quanto meu primo, como tambm tivesse conhecimentos para 
evitar que o veneno dele me matasse.
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Harry serviu-se de outra xcara de caf, enquanto dizia laconicamente:
- Bem, a justia foi feita e quase se pode dizer que ele morreu pelas 
prprias mos.
Ao terminarem a refeio foram de carruagem at a igreja, onde o pastor 
os esperava.
No havia ningum velando o corpo, nem mesmo algum aldeo presente, o que 
era um tanto estranho.
O conde achou, ento, que embora tivessem mantido segredo sobre o que 
acontecera, os empregados deviam, de alguma maneira, ter percebido que 
Jarvis era uma ameaa e talvez tivessem espalhado a notcia.
De qualquer maneira, no havia ningum ao lado do tmulo, quando o caixo 
baixou, a no ser o conde e Harry, e s o pastor rezou com sinceridade 
pelo homem morto.
Depois da cerimnia os dois amigos agradeceram ao pastor, mas no 
comentaram o que havia acontecido, embora estivessem cientes de que, alm 
de Dorina, ele era o nico a saber a verdade sobre a morte de Jarvis, as
foras do mal que ele evocara para agradar Lcifer.
O conde notou que a igreja estava precisando de reparos e decidiu que, 
enquanto estivesse em Yarde, estaria ali todos os domingos.
Tinha certeza que era o que Dorina esperava dele.
Durante o trajeto de volta, com Harry, ia pensando que, de um modo 
estranho, toda sua atitude a respeito do que lhe era exigido em sua nova 
posio mudara.
Quando saiu de Paris estava decidido a reorganizar as coisas e, como 
dissera a Richardson, a levar novas ideias e tambm gente nova para 
Yarde.
O que no previra era que ali tambm deveria ser
111
o que fora na guerra: um lder, um comandante e, se possvel, um heri 
para seu povo.
Agora Jarvis lhe mostrara, de um modo torcido, que ele deveria ser bom, 
embora no gostasse de pensar em si dessa forma.
Estava to absorto em seus pensamentos que nem percebeu a presena de 
Harry que, entendendo, respeitara seu silncio.
S quando os cavalos pararam diante da casa, ele disse:
- Vamos trocar de roupa, Oscar, acho que nos far bem cavalgarmos por uma 
ou duas horas. Nada extenuante, mas tenho certeza de que o exerccio far 
bem a voc.
- Isso  exatamente o que eu pretendia fazer retrucou o conde. - Na 
verdade, sinto-me muito bem. Deve ser em razo daquela estranha raiz da 
China que Dorina me deu.
- Eu ia lhe perguntar sobre isso. Voc sente mesmo alguma diferena?
- S posso lhe dizer que nunca me senti to bem em toda minha vida! Alm 
do mais, minha mente est clara como nunca e eu penso em milhares de 
coisas que quero fazer.
Harry estendeu as mos, fingindo horror.
- Agora est me assustando. Sei como voc  quando est planejando uma 
nova campanha e espera que tudo comece a funcionar instantaneamente!
O conde riu e subiram a escada juntos. O conde pensou que deveria dizer a
Dorina como achara excelente a tal raiz chinesa e pedir que lhe
preparasse mais.
No demorou a se trocar e, quando desceu, os cavalos j estavam
preparados,  espera.
Ele e Harry passearam pelo parque, galoparam, e perto da hora do almoo 
voltaram para casa.
112
Enquanto cavalgava, o conde ia apreciando a beleza de sua propriedade e o
quanto a casa era suntuosa, lom o bosque ao fundo, o jardim bem cuidado,
colorido de flores at s margens do lago. No era de se admirar que
fosse o ponto principal ma famlia, e que os Yarde sempre pensavam em seu
ancestral onde quer que estivessem. Entraram juntos na biblioteca,
onde havia bebidas para um aperitivo antes do almoo e os jornais do dia.
Havia tanto com o que se ocupar em Yarde, que o ponde ficara sem contato
com o que estava acontecendo em Londres, tanto na parte social quanto na
poltica.
Acabara de pegar o The Morning Post quando a porta abriu-se e Burrows
anunciou:
- Lady Maureen Wilson, my lord, e sir Roger Chatham.
O conde ergueu-se, olhando surpreso para lady Maureen, que estava
pintada demais e enfeitada com exagero.
Ela deu um gritinho de satisfao e correu para ele com os braos
estendidos.
- Como pde me negligenciar por tanto tempo, Oscar, meu querido? No
posso mais viver sem voc, por isso vim para c!
O conde, que ficara tenso com a aproximao dela, tomou-lhe a mo num 
gesto corts, levando-a aos lbios; antes de dizer:
- Mas que surpresa, Maureen! No imaginava que viesse.
- Roger foi bonzinho de me trazer na carruagem dele - retrucou ela.
De imediato, sir Roger Chatham adiantou-se e estendeu a mo ao conde.
-  um prazer estar aqui de novo, Yardcombe.
O conde ignorou deliberadamente a mo estendida, dizendo:
- Quando foi meu hspede, sir Roger, a convite de meu primo Jarvis,
abusou de minha hospitalidade e portanto peo-lhe que saia daqui
imediatamente!
Sir Roger fitou-o de olhos arregalados, e lady Maureen espantou-se.
- O que est dizendo? O que  isso, Oscar?
- Tenho certeza de que Chatham sabe muito bem que seu comportamento
recente, em minha casa, no foi condizente com o de um cavalheiro, e 
absolutamente indesculpvel.
A voz do conde era um aoite, e sir Roger, que ficaara rubro, gaguejou:
- No sei de que est falando, Yardcombe. Acho que voc perdeu a razo!
O conde estava certo de que no se enganara ao pensar que tinha sido ele 
quem tentara violentar Mary Bell, e com isso perturbara toda a criadagem 
e os habitantes da aldeia, fazendo com que Dorina o censurasse com uma 
expresso no olhar que ele esperava jamais ver de novo.
Sabia que seria um erro lamentvel, naquele momento, aceitar a presena 
de Roger como convidado para o almoo, conforme lady Maureen 
evidentemente pretendia.
- Eu acho, Chatham - disse com firmeza -, que voc no gostaria que eu 
entrasse em detalhes, por isso sugiro que parta imediatamente. Se quiser, 
pode deixar lady Maureen e vir busc-la depois do almoo.
- O que  isso? De que voc est falando, Oscar?
- indignou-se lady Maureen. - Como  que voc ousa ser to rude com um 
amigo meu?
Ela falou em tom de acusao, mas ao ver a expresso nos olhos do conde e
o ricto de desagrado em seus
116
lbios, passou o brao pelo dele, dizendo em tom conciliador:
- Esta no  a recepo que eu esperava, Oscar querido. Se Roger ofendeu 
voc, sei que ele lhe pedir desculpas e ento poderemos esquecer tudo e 
nos divertirmos os trs.
- No sei por que devo pedir desculpas por algo que possa ou no ter 
feito! - disse Roger, agressivo.
- Yardcombe deu ouvidos a uma poro de mentiras a meu respeito. Minha 
conscincia est tranquila!
- Ento voc  um homem de sorte - respondeu o conde. - Continuo 
insistindo que no pretendo receb-lo agora, nem nunca!
- Ora, que diabos! - esbravejou Roger. - Isso j passou dos limites. No
vou ficar ouvindo insultos de voc ou de qualquer outro por um crime que
no tem nem coragem de citar.
- No tenho medo algum de dizer o que voc fez - retrucou o conde. -
Talvez queira que eu chame meus criados para testemunharem e provarem o
que estou dizendo.
A expresso no rosto de Roger denunciava culpa. Se ainda tinha alguma 
dvida sobre a acusao do conde, deixou de ter naquele momento.
- No pretendo ficar aqui ouvindo um punhado de mentiras. Pensei que voc 
fosse um homem civilizado, um cidado do mundo, mas estou vendo que, 
apesar de tudo, no passa d um reles soldado, cheio de ideias puritanas 
tediosas, incompatveis com o mundo social em que vivo!
O conde no respondeu. Apenas contemplou sir Roger com um olhar de 
desprezo e um meio sorriso que fariam qualquer um sentir-se aniquilado.
Por instantes os dois homens se encararam. Depois,  xingando num
sussurro, sir Roger fez meia-volta e encaminhou-se para a porta.
Antes de sair, virou-se para trs.
- Esperarei cinco minutos por voc l fora, Maureen. Se no aparecer
seguirei sozinho para Londres.
Dizendo isso saiu, e Harry discretamente saiu tambm para deixar o conde
a ss com lady Maureen.
Ela empertigou a cabea, olhando-o com superioridade.
- Mas o que aconteceu, afinal? O que houve? Ah, Oscar, eu estava to 
ansiosa para encontrar voc! Como pde ser to cruel e insensvel?
- Desculpe, Maureen - retrucou o conde -, mas no receberei um homem como 
Chatham em minha casa.
- Mas ele tem sido to gentil comigo!
- Ento sugiro que volte com ele para Londres. Ela apoiou as mos abertas 
no peito dele e aproximou os lbios dos dele, dizendo:
- Eu amo voc, Oscar. Fiz Roger me trazer at aqui porque eu queria v-
lo... queria ter certeza de que ainda me ama como amo voc.
O conde olhou para ela, e, a despeito do tom splice de sua voz, do olhar
sedutor e do suave perfume que acentuava seus encantos, ele disse com
frieza:
- Eu acho, Maureen, que ns dois esquecemos que voc tem um marido. E
isso  muito repreensvel.
A frase teve o efeito de uma bomba para ela. Maureen fitou-o, incrdula.
- Marido? Mas o que ele tem a ver com ns dois?
- Tem muito a ver. E, como eu conheo Wilson e gosto dele, sinto-me
envergonhado por t-lo trado.
- Acho que voc enlouqueceu! Ser que Roger tinha razo dizendo que virou
um puritano de repente?
- Talvez seja a resposta - retrucou ele com frieza.
- No posso acreditar. Esqueceu o que ramos um para o outro, primeiro em
Paris e depois quando voc voltou para Londres?
Percebeu, entretanto, que ele no estava se comovendo com suas splicas,
e mudou de tom.
- No me diga que da noite para o dia tornou-se to decente e correto que
agora acha que uma mulher deve ser inquestionavelmente fiel ao marido? -
Jogou a cabea para trs, altiva. - Se isso  verdade, ento s posso lhe
dizer que vai se tornar objeto de riso de toda Londres.
- Para ser exato, de um certo setor da sociedade do qual voc faz parte.
Pois minha resposta  muito
simples: que riam!
Lady Maureen deu um grito.
- O que est realmente querendo me dizer, Oscar,
que est cansado de mim e j no sente mais atrao. Ela falou como se isso
fosse algo impensvel. Mas o conde retrucou pausadamente. 
- Voc  uma mulher muito atraente, Maureen, mas acho desagradvel 
pensar que estou roubando o que  de outro homem. Isso  humilhante no 
s para ele como tambm para mim.
Lady Maureen bateu o p no cho. - Se est me dizendo a verdade, ento s
posso dizer que est louco! Logo voc, o amante mais ardente e sedutor
que j conheci! S indo para um hospcio!
Fitou-o como se ainda no acreditasse, depois, com uma sbita mudana de
humor, estendeu-lhe a mo, dizendo:
- Oscar, meu querido, ns no podemos nos separar assim...
- Acho que  o melhor que temos a fazer, Maureen
- disse o conde, impassvel -, e creio que no temos nada a ganhar com
essa discusso intil.
117
- Ento eu vou embora! Odeio voc, Oscar! Est me ouvindo? Odeio voc!
- Sinto muito se  assim, mas no posso fazer nada.
- Nada? - e a voz saiu num soluo.
Percebendo que estavam se esgotando os cinco minutos que Roger lhe dera,
ela se encaminhou para a porta, sentindo seu orgulho ferido. Quando j
estava saindo virou-se para trs e, vendo que o conde no se movera para 
det-la, falou:
- Voc vai se arrepender por isso, Oscar. Vai se arrepender muito!
Saiu, ento, batendo a porta com fora.
S quando j no ouvia mais os passos dela na entrada  que o conde foi 
at a janela e respirou fundo, como se precisasse de ar fresco.
Demorou ainda alguns minutos para que Harry voltasse. Deu uma olhada para
o conde, foi at a bandeja de bebida e serviu duas taas de champanhe.
Colocou uma delas na mo do conde, dizendo:
- Voc tem razo, Oscar. Chatam no vale nada e estou contente por nos
livrarmos dele.
O conde tomou um gole da bebida.
- Eu acho que aqueles dois vo inventar uma histria maluca sobre o que 
houve, para prejudicar o nome da famlia - disse ele.
- No acho provvel.
- Por qu?
- Porque ser expulso assim de Yarde  to desonroso que todos achariam 
que voc teve um bom motivo para fazer isso.
- No tinha pensado nisso.
- Voc esquece, meu caro amigo - disse Harry, meio jocoso -, o quanto  
importante agora.
O conde no respondeu. Estava pensando que apenas fizera o que achava 
certo, e isso talvez fosse
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influncia do crucifixo que Dorina lhe dera e que ainda estava usando.
Nanny permitiu que Dorina se levantasse e descesse para o almoo. O corte 
no ombro tinha sarado, e j no a incomodava mais. Porm ela estava 
triste e deprimida, pois pensara que o conde voltaria com seu pai depois 
do enterro e nem sinal dele.
Ficara sabendo pelo pai que o conde e Harry tinham sido as nicas pessoas 
presentes, e ela pde visualizlos voltando para Yarde juntos, rindo 
despreocupados porque a ameaa de Jarvis estava terminada para sempre. 
Agora tudo no futuro do conde era dourado e cheio de luz.
Ele assumira de fato a administrao da propriedade que herdara e tomara 
gosto nisso. Iria mesmo explorar as pedreiras que seu pai mostrara a ele 
no mapa, e contratara vrios aldees para cortar rvores do bosque, o que
significava que haveria trabalho para muitos dos jovens que voltavam da
guerra e no tinham o que fazer.
Dorina repetiu para si que ele j no precisaria mais dela, e sentiu uma 
dor no peito como se aquele estilete de Jarvis tivesse sido cravado em
seu corao.
Enquanto estivera de repouso, Nanny, que agora tinha mais tempo, fizera-
lhe um vestido novo, branco, como h anos ela no tinha.
Era muito simples, de musselina, com fitas verdes que se cruzavam sob os
seios, passavam pelos ombros e caam soltas nas costas, e faziam com que
parecesse uma ninfa.
Dorina olhou-se no espelho e teve vontade de ir ao bosque para pensar. 
Era l que sempre ia, desde criana, com suas alegrias e tristezas. 
Sentia que as rvores e os espritos do bosque a entendiam.
Depois do almoo Peter e Rosabelle foram cavalgar.
Dorina disse-lhes que agora podiam ir ao parque e onde quisessem.
- Graas a Deus que o primo Jarvis morreu - disse Rosabelle -, e ns
podemos passear  vontade!
- Voc no devia dizer isso - repreendeu Dorina automaticamente.
Mas no ntimo sentia o mesmo por Jarvis ter deixado de ser uma ameaa  
vida do conde.
Depois que as crianas se afastaram com os cavalos, Dorina saiu 
caminhando em direo ao bosque.
No centro havia uma pequena clareira feita pelos lenhadores h muitos 
anos e uma das rvores cadas ainda estava no cho. Ali podia sentar-se 
confortavelmente e ficar olhando a Casa Grande com o lago, ao longe, e a 
bandeira do conde tremulando contra o cu azul.
Era tudo to lindo que o corao de Dorina parecia ouvir msica no 
farfalhar das folhas agitadas de leve pela brisa e no canto dos pssaros.
Pensou ento no conde, reinando sobre essa beleza toda, e como tinha sido 
maravilhoso ficar ao lado dele quando lhe pedira ajuda.
Lembrou-se de que salvara a vida dele com os preparados de sua me e esse 
pensamento deu-lhe uma felicidade que era perfeita, arrebatadora e 
diferente de qualquer outro sentimento que j experimentara.
Ficou ali um longo tempo, contemplando a casa e imaginando que conversava 
com o conde, dizendo-lhe o quanto tudo aquilo era importante em sua vida.
Ento se espantou ao ouvir rudos de patas de cavalo aproximando-se cada 
vez mais. Admirou-se, porque jamais ningum interrompera seus devaneios 
no bosque.
Virou-se e viu o conde montado em seu corcel negro. Ele deteve o cavalo 
e, por instantes, ficou parado, assim, contemplando-a.
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Em seguida desmontou, amarrou o cavalo a um galho de rvore e foi
caminhando para Dorina, enquanto tirava o chapu. Ela no pde deixar de
pensar o quanto ele era bonito e msculo. Ento sentiu-se enrubescer, 
pois jamais pensara isso de homem algum.
- Nanny me disse que eu poderia encontr-la aqui
- disse ele, ao alcan-la.
- Eu... eu no sabia que voc iria em casa hoje... do contrrio no teria 
sado.
- No estou reclamando - retrucou o conde. Parece que voc fica muito  
vontade aqui no bosque.
- Ele sorriu e sentou ao lado dela, no tronco cado. Ento contemplou a 
paisagem  sua frente:
- Tenho certeza de que estava pensando em Yarde e em todas as coisas que 
eu deveria fazer para melhor-la.
- Acho que j fez bastante...
- Ainda h muito mais para ser feito. Mas acho, Dorina, que devo comear 
por agradecer-lhe, pois se no fosse voc eu no estaria aqui para fazer 
nada.
- No, por favor, no quero sua gratido. Eu j fico muito feliz de voc 
estar vivo e com sade...
- Acho que no ficaria to feliz da primeira vez que me procurou, cheia
de raiva e censura.
Ela no respondeu e o conde falou, como se estivesse pensando: 
- Acho que foi uma questo de escolha entre Jarvis e eu, e eu era o mal 
menor.
- Tudo isso j passou. Voc cometeu um erro, mas teve a grandeza de 
reconhecer. Agora tudo est mudado.
- Tem certeza, mesmo?
- Certeza absoluta.
- Agora quero saber, Dorina - disse ele virando-se de lado para olh-la -, 
o que sente por mim.
- Bem, eu...
O pedido tomou-a de surpresa e ela enrubesceu, baixou as plpebras e 
desviou o olhar.
- Passamos por algumas experincias estranhas e traumticas, juntos - 
disse ele. - No posso crer que ainda me considere um forasteiro que se 
tornou conde, assim como eu no considero voc mais apenas como uma moa 
bonita e comum, filha do pastor local.
- E como  que... me considera? - perguntou ela, num tom quase infantil.
- Quer mesmo saber? Ento primeiro responda minha pergunta.
- Est bem...  fcil! Eu o considero como um homem bastante capaz para 
ser o conde de Yardcombe.
- Pode ser... mas devo a voc o fato de ainda ser o conde de Yardcombe e 
acho que meu sucesso futuro depende de sua ajuda tambm.
- Terei muito prazer em ajud-lo, mas esta manh eu estava pensando que 
voc j pode se arranjar muito bem sem mim...
Falou com sinceridade, e o conde pensou no quanto ela era diferente das 
outras mulheres que conhecera.
- Voc me disse o que pensa de mim como conde, mas o que quero saber, 
mesmo,  o que pensa de mini como homem.
Ela o fitou com ar de surpresa, como se temesse no ter entendido bem.
Ele, ento, estendeu a mo, fez Dorina erguer-se e dar alguns passos, de 
modo que tivessem uma viso melhor da casa, do lago e das rvores do 
parque.
- A est Yarde - disse ele -, que voc conheceu a vida inteira e que 
significa muito para voc. Mas para mim  tudo novo, j que vivi vinte e 
nove anos sem isso. Portanto, Dorina, quero muito que pense em mim 
independentemente de Yarde, como eu era quando cheguei aqui: um soldado 
comum que fez carreira no exrcito e que no tinha outras ambies fora 
isso.
- Acho que entendo o que est me pedindo. Mas creio que tudo o que 
aprendeu no exrcito j era uma preparao, planejada pelo destino, ou 
por Deus, para que quando chegasse a hora no decepcionasse aqueles que 
dependem de voc e que so gente sua.
O conde riu, e foi um som agradvel e terno.
- Ah, minha querida, s voc poderia me dar uma resposta dessas, que  
verdade, mas, ao mesmo tempo, no  realmente o que eu queria ouvir.
Dorina arregalou os olhos diante do tratamento que ele usara, e ele logo 
acrescentou:
- Agora j deve ter percebido que o que estou tentando lhe dizer com 
rodeios  que eu amo voc.
- Voc me ama... - murmurou ela, e seu rosto se iluminou e seus olhos 
brilharam de felicidade.
O conde jamais vira algum to adorvel, com aquela beleza que era parte 
do sol e das estrelas.
- Sim, eu te amo! - repetiu ele. - Quero que voc me ame no porque sou o 
dono de Yarde, mas por mim mesmo.
Ao dizer isso, enlaou-a pela cintura, puxou-a para si, e, antes que ela 
pudesse responder qualquer coisa, seus lbios se apossaram dos dela.
Ele a beijou com muita suavidade, no s por perceber que Dorina nunca 
fora beijada, mas tambm porque ela lhe inspirasse respeito. Havia algo 
de sagrado nela que jamais encontrara em ningum.
Depois o beijo foi ficando rnais insistente e mais ardente, at que a 
sentiu trmula contra seu corpo.
Tudo em Dorina era to diferente das mulheres passionais e promscuas que 
conhecera no passado que ele temia estar sonhando, como se ela fosse 
apenas fruto de sua imaginao e fosse esvaecer em seus braos.
Quando afinal afastou o rosto, Dorina disse-lhe num murmrio, com voz 
embargada:
- Eu... eu tambm te amo! Eu amo voc, mas no sabia que era amor o que 
estava sentindo.
- E o que sente agora?
- Que voc  to maravilhoso...  como um deus! No pode ser verdade que 
me ama!
- E nunca vou cansar de repetir o quanto te amo! Graas a voc teremos 
toda a vida diante de ns e eu poderei am-la, ador-la, sabendo que 
nossa felicidade far todos que conhecemos felizes.
Dorina escondeu o rosto no ombro dele e seu corpo tremeu ligeiramente.
- Voc est chorando, meu amor! Eu disse alguma coisa que a fez chorar?
-  que... estou to feliz! Hoje mesmo eu estava pensando que, agora que 
voc est bem e tem tudo o que quer, no ia mais me querer...
- Mas voc  o que mais quero! No posso viver sem voc, meu amor.
- Como  possvel sentir isso?
- No s  possvel, como  verdade. Vou amar voc cada minuto, at o fim
da vida - suspirou e apertou-a de leve. - Voc  o que sempre procurei e 
pensei que fosse impossvel de existir.
Segurou-a pelo queixo e ergueu seu rosto para olh-lo.
- Como voc pode ser to linda, to doce, meiga e altrusta? E como eu 
pude ter tanta sorte de encontr-la?
- Eu sempre vivi aqui em Little Sodbury... talvez voc se canse de mini 
quando me conhecer melhor... e queira voltar para as mulheres exuberantes 
que conheceu em Londres.
O conde entendeu que ela estava se referindo a lady Maureen e falou:
- Tenho algo para lhe contar, meu amor, embora no tenha importncia 
imediata. Mas acho que, quando
voc chegar em casa, j estar correndo a notcia do que aconteceu.
Dorina arregalou os olhos.
- O que houve?
- Um pouco antes do almoo, chegou sir Roger e eu o expulsei.
Dorina no disse nada e ele prosseguiu:
- Foi o que achei que voc gostaria que eu fizesse. Dorina deu um 
gritinho.
- Claro! Agora todos sabero que voc no aprova a atitude dele com Mary 
Bell e o admiraro ainda mais... e confiaro em voc.
- Sabia que entenderia. Quero lhe dizer tambm que lady Maureen veio com 
ele e eu a mandei de volta a Londres.
Os olhos de Dorina brilharam de felicidade.
- Est tudo terminado, Dorina. Foi mais um erro que cometi, mas reconheo 
agora que fiz mal em envolver-me com uma mulher casada.
- Ela ficou muito... aborrecida?
- Ficou muito brava comigo! S quero que entenda que voc me fez perceber 
o que  certo, honrado e bom na vida. E  isso que defenderemos juntos, 
para ns e nossa gente.
- Que bom ouvir voc dizer isso...
- Estou sendo sincero. O crucifixo de sua me me fez tomar as decises 
certas e no vou tir-lo mais, mesmo depois de casarmos.
Os olhos dela encheram-se de lgrimas, que rolaram por suas faces.
- Voc  maravilhoso...  tudo o que um homem deve ser, principalmente um 
que  o conde de Yardcombe...
Ele sorriu.
- Acho melhor voltarmos para sua casa, meu amor. - Antes que ela pudesse 
dizer qualquer coisa,
puxou-a para si, dizendo: - Quando vamos nos casar? Quero voc comigo na 
Casa Grande e h tanta coisa para se fazer aqui na propriedade que no 
podemos ter uma lua-de-mel muito longa. Dorina riu, um riso musical.
- Voc est indo depressa demais! Ainda nem disse se aceito casar!
- Voc ousaria me recusar?
- Estou s um pouco assustada, com medo de no ser a pessoa certa para 
voc...
Desviou o olhar por instantes, contemplando a vista, e disse:
- Jamais sonhei em viver na Casa Grande e ser esposa do proprietrio 
dela!
- E quem mais a no ser voc entenderia a importncia dela para nossa 
gente?
- Por isso mesmo... tenho medo de decepcionar voc.
- Nunca me decepcionar!
- Como pode ter tanta certeza?
- Porque voc tem percepo e instinto de fazer a coisa certa na hora 
certa, sem hesitao e sem refletir.
- Isso  porque Deus me ajuda.
- Eu sei e  por isso que preciso que me ajude! Dorina, no posso viver 
sem voc!
Ele sorriu e falou com voz aveludada, que fez derreter seu corao.
- Agora pergunto-lhe de novo. Quando vamos nos casar, meu amor?
- Quando voc quiser...
- Isso era o que eu queria ouvir.
Ento beijou-a de novo, dessa vez apaixonadamente, um beijo prolongado e 
ardente que fez seus coraes baterem em unssono.
- Ento vamos nos casar imediatamente. No posl mais
mais esperar. - disse ele. - E a no ser que prefira de outro modo,
que seja uma cerimnia simples.
-  o que eu quero tambm. Ficaria assustada se houvesse uma multido de 
amigos seus da sociedade, criticando-me e talvez me detestando por ter 
afastado voc deles...
O conde no interrompeu e Dorina prosseguiu:
- Mas acho que voc entende que todos da aldeia e do condado devem 
comparecer ao nosso casamento... Deve isso a eles, voc pertence a eles.
- E voc tambm.
- Eles ficariam magoados se no fossem convidados e eu acho...
Dorina fez uma pausa e olhou-o timidamente.
- Acho que eles vo querer brindar com cerveja  sua sade e talvez 
festejar com fogos.
O conde riu.
- Eu entendo, meu amor. Todos sero convidados e ofereceremos cerveja e 
comida  vontade e, claro, fogos, para que no se sintam excludos numa 
ocasio to importante.
- Eu sabia que voc entenderia.
- E tem mais uma coisa que voc no lembrou,
meu amor.
- O que ? - perguntou Dorina, ansiosa.
-  seu enxoval! Mas no se preocupe. Mandarei buscar em Londres tudo o
que voc precisa.
- Voc pensa em tudo... Eu tinha mesmo esquecido. Eu ia parecer a Gata 
Borralheira vestida assim na festa.
- Voc fica linda com qualquer roupa. Mas sei o que esperam de voc como
condessa e, portanto, ter o enxoval mais caro e bonito que uma noiva 
pode querer.
Dorina respirou fundo.
- Tudo o que quero  que me ache bonita.
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- O que voc veste no importa - disse ele, segurando-lhe o rosto. - 
Porque eu sempre estarei olhando para seus olhos, meu amor, que espelham 
sua alma. Uma alma to linda e perfeita que tenho vontade de ajoelhar-me 
e agradecer a Deus por ela.
E o conde a beijou novamente, beijos prolongados, cheios de amor.
E Dorina entendeu, ento, que estavam j to unidos atravs de suas 
mentes e coraes que nenhuma cerimnia iria aproxim-los mais.
Ela era dele e ele era seu e a Divina Providncia, que os fizera passar 
por tantas experincias estranhas e aterradoras, finalmente unira-os com 
o amor e a magia que os acompanharia por toda a eternidade.
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                                    ****

                    FIM
